Saúde do Trabalhador

01 de Junho de 2016 - 13:06

Assédio Sexual é Inaceitável

Violência sexual: uma discussão necessária

Ficamos todos profundamente impactados diante da violência divulgada no dia 25 de Maio. Uma menina de 16 anos foi estuprada por mais de 30 homens que ainda divulgaram imagens da violência em seus perfis, zombando e expondo a vítima. Para muitos esse episódio pode parecer uma monstruosidade que só acontece nos espaços mais abandonados da sociedade, mas a realidade é que a violência sexual contra a mulher prevalece em todas as camadas sociais e regiões do Brasil.

Em 2014, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2015, registraram-se 52.688 ocorrências policiais de estupros ou tentativas de estupros no Brasil. Sabe-se que esse é um crime pouco denunciado pelas vítimas, pelas mais diversas razões, o que leva a estimar um número de ocorrências muito superior a esse número.

Assédio Sexual: Mais uma de muitas agressões à mulher trabalhadora

Quando as mulheres ingressam na força de trabalho são obrigadas a lidar com uma série de dificuldades: duplas e triplas jornadas, menor reconhecimento e valorização de seu trabalho e competências, maior chance de serem vítimas de assédio moral, entre outras tantas práticas que buscam reforçar o espaço público e do trabalho como espaços masculinos.  O texto de hoje aborda uma das mais perversas práticas contra mulheres no ambiente de trabalho: o assédio sexual.

Alguns homens ainda enxergam o trabalho e qualquer espaço fora do lar como inadequado à mulher. Encaram aquelas que precisam ou escolhem trabalhar, então, como mulheres “desviadas”. Percebem seus corpos e suas vidas como públicas, como se sair do espaço privado do lar as negasse qualquer direito à privacidade. Pensam poder agir com elas como bem entendem, afinal, “se fossem mulheres de bem estariam em casa”.

Outros, ainda, não entendem que o espaço de trabalho pode ser espaço de amizade, mas que a conduta profissional deve ser sempre mantida e o respeito ao colega, chefia e subordinados deve ser sempre a maior prioridade.

Quando uma mulher diz “não” ela está dando uma resposta, não propondo um desafio. Seus limites devem ser sempre respeitados, mesmo que alguém acredite que é tudo “uma brincadeira inocente”. Brincadeira só é brincadeira quando todos concordam em participar e todos se divertem.

Se você vê uma pessoa sentindo-se humilhada, envergonhada ou intimidada por “brincadeiras” no seu local de trabalho, você está testemunhando um ato de violência no trabalho. Não seja conivente, não aceite!

Culpabilização da vítima

É muito comum, como em quase todo episódio de violência contra mulheres, que se busque isentar o agressor de responsabilidade (ou ao menos reduzi-la), atribuindo à vítima alguma culpa.

Busca justificar-se as violências sofridas pelas roupas usadas, pelo comportamento da vítima, por possíveis “mal-entendidos”.

“Ah, ela vinha muito arrumada para o trabalho” ou “ah, ela usava roupas justas”, “ah, ela era simpática demais!” – dizem.

Comportamentos ou vestimentas JAMAIS justificam o desrespeito aos limites de alguém.  Temos direito de nos vestirmos como nos sentimos mais confortáveis no trabalho. Se alguma vestimenta não está de acordo com as necessidades da ocupação, isso deve ser apontado respeitosamente, jamais justificando qualquer agressão.

Quando buscamos o que a vítima poderia ter feito para “provocar” o assédio nós desviamos a atenção do agressor, que escolheu ignorar os limites de outra pessoa. Essa escolha é o verdadeiro erro e é em impedi-la que devemos focar nossas ações.

Além disso, culpabilizar a vítima pode prejudicar sua recuperação. O assédio pode afetar a autoestima da vítima ou sua capacidade de confiar em outras pessoas ou de sentir-se segura. Quando dizemos que ela poderia ter feito algo para impedir o assediador, acrescentamos ainda sentimentos de culpa e de autodepreciação para a pessoa lidar.

Quem realmente deve ser impedido é o agressor. A vítima deve ser acolhida, ouvida e fortalecida.

 

Práticas do assédio sexual

O assédio sexual cria um ambiente hostil, com condutas intimidadoras ou humilhantes para a vítima. São práticas do assédio sexual, segundo a OIT:

  • Assédios verbais: comentários ou perguntas sobre a vida íntima e/ou sexual da vítima ou sobre seu corpo
  • Assédios físicos: Violências físicas, toques indesejados, proximidade desnecessária
  • Assédios não verbais: Assovios, gestos sexualmente-sugestivos e exibição de materiais com conteúdo sexual.
  • Suborno: fazer subordinados se submeterem a algum comportamento sexual como condição para promoções, aumento ou permanência no trabalho.

 

Assédio sexual e assédio moral: duas faces de uma mesma moeda

O assédio sexual e o assédio moral tem fortes ligações.  Muitas vezes o assédio sexual vem como mais uma terrível agressão no assédio moral, como maneira de atingir profundamente a dignidade e a identidade da vítima.

O assédio moral pode surgir, porém, como estratégia daquele que pratica o assédio sexual para desencorajar a denúncia ou punir a vítima que resiste e não se submete às agressões. Visa humilhá-la e destruir sua autoestima para que aceite calada as violências praticadas.

 

O assédio sexual contra homens

Ainda que estejamos inseridos numa estrutura social sexista que reforça práticas, protege agressores e busca justificar o assédio sexual contra mulheres, os homens podem também ser vítimas dessa terrível violência. Mesmo que isso aconteça com menor frequência, em nada se deve diminuir a importância dessas ocorrências.

Na sociedade machista espera-se que o homem seja sempre “viril” e pronto para atos e ações sexuais. Recusas são vistas ou apontadas como pouca masculinidade, desrespeitando e ignorando a humanidade dos homens que dizem “não”.

Isso pode desencorajar homens a denunciar os assédios vividos ou mesmo reconhecê-los como agressões.

Não desejar realizar atos sexuais JAMAIS faz alguém menos homem e é seu direito se sentir desconfortável com práticas, falas e atos com os quais você não consente. Você nunca é obrigado a dizer sim!

Procure ajuda!

A sexualidade é muito importante na vida humana. É uma construção pessoal e íntima que pode ser compartilhada com muitas ou poucas pessoas – mas sempre apenas com quem VOCÊ escolher.

Se alguém está desrespeitando seus limites, busque ajuda. Busque o RSU de sua unidade para contar o que está acontecendo. Procure uma delegacia da mulher e faça um boletim de ocorrência.  Você não é obrigada (o) a suportar essa situação!

Caso você perceba ter sido vítima de assédio sexual, procure a ajuda de um psicólogo para enfrentar os desdobramentos dessa experiência e fortalecer-se para denunciar ou para retornar ao trabalho. Você pode buscar o Centro de Referência a Saúde do Trabalhador mais próximo de sua residência ou a Clínica do Trabalho, na Clínica Ana Maria Poppovic.  Você pode ainda procurar serviços próximos à sua residência no site http://www.redededefesadedireitos.com.br/.

Lembre-se: você não está sozinha (o) nessa situação. Muitas pessoas passaram ou passam por isso e através da união podemos dar um basta ao assédio sexual no local de trabalho!

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Carolina de Moura Grando é psicóloga formada pela PUC-SP e mestranda pela FUNDACENTRO em Trabalho, Saúde e Ambiente. Trabalha na assessoria da Secretaria de Política de Saúde do Trabalhador do SINDSEP-SP.