Educação

14 de Julho de 2021 - 09:07

Iabas fecha acesso de crianças para o teatro em EMEI no Cambuci

Comunidade escolar e usuários da UBS protestam contra decisão arbitrária de gerente da UBS Cambuci, lançam abaixo-assinado e participam de ato nesta sexta (16).

Por Cecília Figueiredo (texto e imagens), do Sindsep

 

 

O Sindsep recebeu na semana passada um pedido da comunidade escolar da EMEI Regente Feijó, no Cambuci, centro de São Paulo, para divulgar o abaixo-assinado contra o fechamento de uma passagem no terreno da escola para as crianças acessarem seu anfiteatro Nair Bello. O documento, contrário à decisão tomada pelo representante da organização social (OSS) Iabas, que gerencia a UBS Cambuci, foi lançado no mesmo dia em que foi iniciada a construção de um cômodo para armazenamento de produtos de limpeza da unidade de saúde. A instalação do “quartinho” no corredor que ligava a EMEI ao teatro da escola, já reúne cerca de 700 assinaturas. 

Diante do problema, o Sindsep esteve no local para ouvir a comunidade dos dois serviços públicos e tentar saber a motivação do representante do 
Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde, que se negou a esclarecer. Nesta sexta-feira (16), às 10h, um ato será realizado com trabalhadores e comunidade usuária da EMEI Regente Feijó e UBS Cambuci. O mobilização, em defesa das políticas públicas de educação e saúde, pede a desobstrução imediata da passagem de acesso das crianças da EMEI ao Espaço Nair Bello, além de ser um protesto à terceirização dos serviços de saúde. O ato é também pela saída do Iabas da UBS Cambuci, o fim das perseguições a trabalhadores da UBS Cambuci e abertura imediata da agenda de consultas.

 
 
Abaixo, à esq., obra no corredor utilizado por alunos da EMEI, e, à dir., foto interna do cômodo na terça (13). | Foto: CF
 

O que está acontecendo?
 
A UBS Cambuci funcionava num espaço pequeno, sob gestão terceirizada e em 2015 foi assumida pelo Iaba, apesar da comunidade protestar. A Secretaria Municipal de Saúde pediu então à Secretaria Municipal de Educação a cessão de mais 2/3 da área ocupada pela quadra da EMEI Regente Feijó, utilizada para atividades com as crianças. Em março de 2018 surgiu uma nova unidade, maior, bonita, mas que esconde muitos problemas, incluindo a alta rotatividade de gerentes, falta de médicos, diálogo com a comunidade e desrespeito ao Conselho Gestor.
 
 
EMEI, com 73 anos de história na região, cedeu espaço para a construção de UBS Cambuci, inaugurada em 2018.
 
 
Terceirização atropela política pública
 
Na opinião de usuários da UBS Cambuci, a medida “arbitrária” combina com o perfil do atual gerente, funcionário do Iabas. “Esse assunto não foi submetido à comissão de saúde e acredito que nem ao conselho gestor”, sugere Márcia Bovo, usuária do serviço de saúde, que integra a Comissão de Usuárias e Usuários da UBS Cambuci, ao criticar o gestor por não respeitar a opinião da população e nem resolver as questões da UBS levadas pela comunidade.
 
Usuários e funcionários da saúde e educação reforçam que a preocupação do gestor desde o início de 2021 tem sido bastante controversa e autoritária. “A UBS funciona dentro do terreno da escola, entre as salas de aula, o parque e o anfiteatro. Com a construção da nova UBS, que está exatamente no meio da EMEI, foi acordado que o corredor atrás da UBS ficaria pra passagem livre entre a escola e o teatro, para evitar circular com as crianças pela rua, por ser uma área movimentada, de corredor de ônibus e que tem inclusive hoje uma ciclofaixa. Esse corredor atrás da UBS, que fica paralela à avenida Lacerda Franco, era a nossa passagem e foi nela que o gerente da UBS decidiu construir um quartinho. Tentamos conversar com ele, ele se recusou e respondeu à direção que mandasse e-mail, caso a direção estivesse incomodada”, conta uma das funcionárias da EMEI.
 
Crianças terão que dar volta no quarteirão para andar em sua escola?!
 
Da noite para o dia, a passagem se tornou um cômodo para abrigar produtos de limpeza. “Não houve consulta ao conselho de saúde e nem ao conselho da escola. Causa muita chateação, porque sempre trabalhamos no sentido de buscar a integração das secretarias. É uma riqueza o trabalho intersetorial de três secretarias. A Saúde utiliza direto o nosso teatro, inclusive a vacina contra a Influenza está sendo lá desde abril, mesmo precisando do espaço, mas cientes de que a questão da saúde na pandemia é prioritária. Nos causou muita estranheza a resposta do gerente”, acrescenta outra trabalhadora.
 
Segundo funcionários da EMEI, anualmente há mudança de gestor da UBS “por não serem funcionários públicos, mas de organização social”, mas esta é a primeira vez que ocorre problemas dessa natureza. “Sempre foi harmônica a relação, porque há uma via de mão dupla entre as áreas. Precisamos de informações sobre a nossa comunidade e é assim que se trabalha a intersetorialidade”, diz uma servidora. Uma das funcionárias acrescenta que, de cara, o gestor da OSS Iabas demonstrou interesse em anexar o teatro para a UBS.
 
Se para funcionários da escola, causa perplexidade o fechamento da passagem ao Espaço Nair Bello – que é bastante utilizado e, por meio de parcerias com companhias autônomas de teatro que necessitam de local para ensaiar, tem gerado oficinas e apresentações às crianças e comunidade da EMEI –, para a comunidade vem causando revolta.
 
“Para as crianças que são pequenas, de quatro, cinco anos, ter que dar a volta em meio quarteirão pela rua é bem estranho, sendo que o espaço é da escola. Afinal, a escola empresta sempre o espaço do teatro para a UBS, já foi cedida boa parte da quadra das crianças para a UBS ser ampliada. Esse novo administrador constrói agora um muro?! Ele pode impedir a circulação das crianças no espaço delas de educação? Não foi consultado o Conselho, e acredito que seja dever dele. Não foi ouvida a direção da EMEI”, questiona a conselheira da EMEI, Claudia Patrocinio A. de Castro, mãe de Eloísa, aluna do Ensino Infantil II. 
 
Claudia se diz preocupada com o avanço da OSS Iabas na EMEI, o desrespeito ao controle social e às instâncias de participação e deliberação da comunidade escolar. “A escola é da comunidade e não está sendo ouvida. Primeiro, tomam mais da metade da quadra, em seguida, coloca um tanque [do lado de dentro do portão mantido fechado com chaves] para lavar coisas da unidade, de frente para o parquinho, depois fecha a passagem das crianças!?”.
 
Ao ser indagada sobre uma hipotética proteção das crianças contra o risco de contaminação da covid na atitude do gestor, ela descarta. “Porque a vacinação contra a Covid não está sendo feita dentro da UBS, mas externamente, por meio de drive-thrue e uma tenda no balneário. Eu não sei qual foi o objetivo dele. A escola está no meio de uma situação de saúde, que implica toda a comunidade. Não sabemos de onde veio essa ordem. Não nos foi apresentado nem um documento pela unidade básica de saúde para a comunidade escolar ou mesmo para a direção da EMEI. O ideal era a UBS se manifestar, para que houvesse um consenso”.
 
 
Terreno de EMEI reúne espaços de cultura, lazer, esportes e saúde, para executar política intersetorial.
 
 
'Homem branco, hetero e poderoso não dá explicações'
 
Fabiana Cássia Silva de Almeida, mãe de Ayra Almeida Alvares, aluna do Infantil II, se diz estarrecida com a obstrução do corredor. “Ficamos tão estarrecidas com a notícia de que a obra já estava ficando pronta e que o gerente se negava a conversar ou paralisar, que fizemos uma reunião aberta para toda a comunidade, a direção enviou e-mails para a Prefeitura de São Paulo, para a DRE Ipiranga, além de conversar com mães que foram até a escola, e a elaboração do abaixo-assinado”.
 
Indignada, ela acredita que a postura do gestor indica ‘o olhar patriarcal branco, colonizador, para resolver questões que vão além da estrutura física’. “Mais ou menos assim: o meu pacto é único e exclusivo com a branquitude, é assim que vou tratar disso, e se quiser falar disso comigo, fale por e-mail, não vou ouvir ninguém, porque sou homem branco, hetero e poderoso’”, traduz a mãe conselheira de escola, com relação à negativa do gerente da UBS ao pedido da direção da EMEI para conversar. 
 
 
Quadrilátero: ruas Dom Duarte, Sen. Carlos T. Carvalho e avenidas Lins de Vasconcelos e Lacerda Franco.| Reprodução: Google Maps
 
 
Há duas entradas oficiais para o público acessar o Espaço Cultural Nair Bello. Um dos caminhos passa pelas avenidas Lins de Vasconcelos e Lacerda Franco, rua Senador Carlos Teixeira de Carvalho até a Rua Dom Duarte Leopoldo (portão do Espaço Cultural Nair Belo). Um segundo jeito é pela avenida Lacerda Franco para chegar a Dom Duarte Leopoldo. Todos os caminhos demandariam a circulação por avenidas de trânsito intenso.
 
“Claro que a gente, como mães e pais, tem plena confiança no pessoal da EMEI, mas é inadmissível que crianças podendo circular num equipamento de sua escola sejam obrigadas a passar pela rua”. A mãe de Ayra também não acredita que a decisão do gerente foi motivada por cuidado com as crianças, trabalhadores e familiares, e está disposta a dar continuidade a luta contra o fechamento da passagem. “A gente só consegue avançar quando está todo mundo junto”, enfatiza.
 
Todos que foram ouvidos para a reportagem reforçaram a falta de respeito do representante da OSS com a história e a política pública.
 
 
Da Semana de 22 à EMEI Regente Feijó
 
Isto porque a EMEI Regente Feijó está presente na comunidade do Cambuci há 73 anos e traz a contribuição dos parques infantis de Mário de Andrade, para a construção de uma pedagogia da educação infantil.
 
Reprodução de parte do livro Mário de Andrade e os parques infantis
 
 
Inaugurada em 1948, a EMEI surgiu sob um novo conceito pedagógico e arquitetônico, assinado pelo fundador do modernismo no País, Mário de Andrade. O poeta, romancista, musicólogo, historiador de arte, crítico, fotógrafo e fundador da Semana de 1922 foi um feroz crítico da burguesia. Em 1935, como diretor fundador do Departamento de Cultura de São Paulo, ajudou a criar o projeto educacional dos Parques Infantis (PI), que assim como a EMEI Regente Feijó reúne além da estrutura de salas de aula, refeitório, área de lazer, cultura e esportes. 
 
 
Reprodução de retrato do artista, cartaz da exposição da Semana de Arte Moderna e do livro-pesquisa
 
 
Ana Lúcia Goulart de Faria, em sua tese de doutorado em Educação pela Unicamp, defende que os PIs foram “a primeira experiência brasileira pública municipal de educação (embora não-escolar) para crianças de famílias operárias que tiveram a oportunidade de brincar, de ser educadas e cuidadas, de conviver com a natureza, de movimentarem-se em grandes espaços”. E completa: “Lá produziam cultura e conviviam com a diversidade da cultura nacional, quando o cuidado e a educação não estavam antagonizados, e a educação, a assistência e a cultura estavam macunaimicamente integradas, no tríplice objetivo parqueano: educar, assistir e recrear”. 
 
A escola, localizada no Cambuci, foi erguida num terreno público que ocupa um quadrilátero entre as duas principais vias da região, avenidas Lins de Vasconcelos e Lacerda Franco. Na construção inicial constavam as salas de aula, a secretaria, quadra poliesportiva, anfiteatro coberto (Espaço Cultural Nair Bello), teatro de arena e refeitório -- atualmente o galpão de ginástica do Balneário do Cambuci.
 
Em meados da década de 1950, uma parte da EMEI foi cedida para a construção de um posto de saúde. Em 1960 foi construída uma piscina de salto e treinamento com 15 metros de comprimento nos fundos da EMEI, ao lado da Rua Dom Duarte Leopoldo, e algum tempo depois foi construído um campo de futebol semelhante aos de Society, na parte do terreno que faz frente para a Avenida Lins de Vasconcelos.
 
Durante a década de 1970, com a construção de, pelo menos, 30 Centros Esportivos e Educacionais pelo Poder Público, a EMEI cedeu mais uma parte do terreno para a recém-criada Secretaria Municipal de Esporte e Lazer. Com isso, o antigo refeitório, a piscina de salto e o campo de futebol passaram a integrar o novo complexo esportivo. 
 
De lá pra cá, a EMEI ficou com duas entradas, uma pela rua Senador Carlos Teixeira de Carvalho e outra pela Avenida Lacerda Franco. E com a cessão da maior parte do terreno onde funcionava a quadra poliesportiva, a Prefeitura de São Paulo ergueu a UBS Cambuci, inaugurada em março de 2018. As salas do antigo posto de saúde, que pertencia inicialmente á Educação, voltaram para a EMEI.
 
 
Escola, quadra poliesportiva, psicinas, UBS, teatro de arena, anfiteatro e parquinho formam a EMEI.
 
O Espaço Cultural Nair Bello sempre foi cedido à equipe da UBS para realizar reuniões, ações e palestras, mas aos finais de semana grupos de teatro, música e dança realizam ensaios e apresentações o que possibilita uma utilização correta de um equipamento público, e até este ano o diálogo tinha efetividade. Era possível trabalhar a intersetorialidade e, o mais importante, o desenvolvimento da infância com respeito ao exercício de educar, assistir e recrear.