Educação

28 de Setembro de 2022 - 09:09

Projeto Motoca na Praça vai integrando a escola com a comunidade central

Projeto da EMEI Armando de Arruda Pereira quebra preconceitos e ajuda a garantir o direito da criança à cidade na aprendizagem lúdica da Educação Infantil.

Por Redação

 
 
 

Nas fotos do site da SME, as crianças passam na feira, interagem com pessoas na República, visitam a Galeria Pivô, no Edifício Copan, e atravessam a Avenida Ipiranga.
 
 
Durante o X Congresso da Educação do Sindsep, realizado entre 21 e 23 deste mês, a comissão organizadora convidou a professora de Educação Infantil Lívia Arruda, da EMEI Armando Arruda Pereira, para apresentar o Projeto Motocas na Praça, que conquistou o 1º lugar na Categoria Educação Infantil, do Prêmio Paulo Freire de Qualidade do Ensino Municipal, entregue na Câmara Municipal de São Paulo, em 19 de setembro, e também foi um dos escolhidos na 6ª edição (2022) do Prêmio Territórios do Instituto Tomie Ohtake.
 
 
Lívia Arruda, professora e idealizadora do projeto, relatando a experiência no X Congresso. | Foto: Pedro Canfora

 
A iniciativa, realizada com crianças do Ensino Infantil na faixa etária entre 4 e 5 anos a bordo de triciclos (motocas) ou carrinhos para crianças sem mobilidade, busca promover a democratização do espaço público.
 
As saídas acontecem semanalmente e são acompanhadas por rodas de conversas com as crianças antes e depois dos passeios, o que inclui no percurso interações com transeuntes, visitas a equipamentos culturais e registro das vivências por meio de desenho e fotografia.
 
“Ao propiciar experiências lúdicas com motocas, além do chão da escola, o projeto destaca o território como espaço de aprendizagem e de experiência para as crianças, além de contribuir para a visibilidade da infância na cidade – especificamente na região central de São Paulo – e fortalecer as relações com o território, por meio de parcerias com vizinhos, serviços, instituições e equipamentos culturais e sociais da região”, esclarece a página no Instagram @projetomotocanapraca, onde podem ser acessadas imagens dos passeios.
 
 
Crianças registram em desenhos suas vivências dos passeios. | Foto: Arquivo EMEI
 
“Essa aventura tem sido realizada desde 2019 na Praça da República e já estamos estendendo pelos arredores. Muitos nem percebem que há uma escola ali e a idealização desse projeto veio da necessidade de criar uma maior integração da escola com a praça, de que elas ocupassem a cidade, usufruir dos equipamentos de cultura que são direitos delas e também falar da situação de miséria que aumentou e está na cara delas. Muitas crianças da EMEI são imigrantes, de ocupações, migrantes e de hotéis sociais. Muitos nem conheciam a praça da República”, conta a professora Lívia. 
 
Além do objetivo de estimular esse pertencimento do espaço às crianças, que passeiam com triciclos, os alunos na faixa etária entre 4 e 5 anos vão reconhecendo pessoas em situação de rua, garis e interagir. “Com essa interação vamos quebrando os preconceitos, criando relação entre elas e o meio em que está a escola, descobrindo a comunidade que há no centro e que elas usufruam”.
 
Como há muitos calçadões, passamos a partir desse ano atravessar com as crianças e chegar até o SESC, até o Teatro Municipal, CCBB. Nessa experiência, ela relata o poder de transformação das outras pessoas ao observarem as crianças. “Mesmo as pessoas em situação de maior vulnerabilidade demonstram respeito às crianças, cumprimentando, conversando, sorrindo, e à medida que isso acontece a criança vai desfazendo preconceitos que poderia ter. As saídas também promovem a observação, que elas registram em desenhos”.
 
 
A bordo das motocas, crianças da Educação Infantil desbravam centro de São Paulo. | Foto: Arquivo EMEI
 
A exploração da praça no projeto Motocas é uma forma de enfrentar o controle de corpos das crianças. “A aprendizagem não pode ser restrita a um banco de sala de aula”. 
 
Várias professoras e professores apresentaram suas dúvidas e também experiências. A iniciativa foi parabenizada, assim como a gestão democrática na EMEI Armando Arruda Pereira, que é parte fundamental para apoiar um projeto que, para alguns, pode indicar apenas o risco pela saída com crianças para passear pelo espaço público.


Para Eni de Souza, diretora da EMEI, o projeto representa a defesa do direito da criança à cidade e a quebra de preconceitos
 
“Esse é um projeto ousado, mas saímos junto com outras escolas do centro desde 2014, por integrarmos o projeto Travessias. O importante é que a Praça da República é um lugar de muito preconceito, as pessoas que vivem ali são vítimas desse preconceito. Famílias levam os filhos à escola com muito medo, dizendo que não querem a criança dela naquele local e essas saídas mostram que a gente tem direito à cidade, a criança tem direito à cidade e precisa ser respeitada. Ela tem direito ao metrô, ao ônibus de linha. Quando há uma saída de maior distância avisamos e a parada de metrô, por exemplo, é mais lenta. Há acompanhamento. No teatro, a mesma coisa. A gestão é importante, mas se não houver o grupo [educadores envolvidos na ação] não seria possível. Mesmo com dificuldades, falta de funcionários estamos obtendo a premiação de projetos na cidade que chegam à população”, acrescentou a diretora da EMEI, Eni Pereira de Souza.


Além do Prêmio Paulo Freire, "Motocas na Praça" foi agraciado com o Prêmio Territórios, do Instituto Tomie Ohtake
 
 
 
 
Edição: Cecília Figueiredo