Educação

10 de Novembro de 2020 - 14:11

Retomada de aulas presenciais nos CEUs é pacto com a morte; trabalhadores decidiram não retornar

No próximo dia 19, profissionais retornarão junto com servidores da Assistência Social e Saúde, para pressionar a Prefeitura de SP a dialogar

O Sindsep, entidades sindicais, representantes do Conselho Municipal de Saúde e trabalhadores dos Centros de Educação Unificados protestaram, nesta terça (10) em frente a Prefeitura de São Paulo, contra a tentativa de reabertura dos CEUs, insistida desde julho pelo governo do prefeito Bruno Covas.
 
 
 
Um parecer da Vigilância em Saúde, antes de ser desmontada em agosto por Covas, dizia que as escolas só poderiam ser abertas na fase azul. Uma pesquisa da Secretaria de Saúde demonstrou que a maioria dos alunos que se contaminaram na cidade eram das escolas municipais, portanto, concentrados nas periferias. “E de cada três crianças que tiveram Covid-19, duas não apresentaram sintomas. Somente diante da reação dos profissionais da educação e das famílias contrárias à reabertura, o prefeito recuou durante o período eleitoral. A pandemia não acabou. Foram notificadas em outubro mais 676 mortes por Covid-19 aqui na cidade de São Paulo, mais de 20 mil mortos, entre casos confirmados e suspeitos. E a maioria delas registradas na periferia onde se concentram os CEUs”, detalhou Sérgio Antiqueira, presidente do Sindsep.
 
Durante o ato, acompanhado de muito buzinaço dos carros parados em frente ao gabinete do prefeito Bruno Covas, foram distribuídos materiais esclarecendo à população em que estágio estão sendo abertos os centros de educação unificados (CEU), na cidade de São Paulo, e os riscos que podem provocar. “Na próxima semana iremos protestar nas periferias, que é onde estão os maiores números de mortes e adoecimentos”, avisou Sérgio.
 
O ato, que foi definido em plenárias dos trabalhadores com o Sindsep dias atrás, teve uma série de protestos nas buzinas de dezenas de carros estacionados no viaduto do Chá e falas de  trabalhadores e trabalhadoras dos CEUs.
 
“Retorno eleitoreiro, não! Numa manobra eleitoreira, o senhor Bruno Covas coloca em risco os nossos filhos, a população que visita os CEUs, as famílias de alunos, profissionais e seus familiares. Não podemos permitir que numa cidade com mais de 40 mil vidas perdidas sejam reabertos os CEUs. São mais de 5000 pessoas que circulam nas unidades diariamente. Não houve testagem dos profissionais e estão sendo obrigados a retornarem hoje. Hoje estamos fazendo essa paralisação, porque não há condições sanitárias de retomada segura”, disse Luba Melo, secretária de Atenção à Mulher Trabalhadora, ao resgatar todos os pleitos encaminhados e ignorados pelo governo.
 
Ela também denunciou a lista de 12 novos CEUs que são alvos para iniciar o processo de privatização de todos os CEUs.  
 
“O prefeito quer a população da periferia quietinha, com ruas esburacadas, esgoto correndo a ceu aberto, doentes, morrendo, sem hospitais em condições para atender, com CEUs funcionando sem segurança sanitária. Não terão silêncio”, alertou João Gabriel Buonavita, vice-presidente do Sindsep, ao pedir mais um buzinaço.
 
 
 
Ele acrescentou que os CEUs, único espaço de lazer, cultura e convivência de muitas comunidades periféricas, estão em risco de se transformar em espaços de contaminação. A retomada, para ele, se faz de forma irresponsável. “E agora na semana da eleição, governo que não fez nada nesses quatro anos, inaugura novos equipamentos para se reeleger. É eleitoreiro seu único objetivo", enfatizou Buonavita.
 
Na opinião de Karine, trabalhadora do CEU Alvarenga, em Pedreira, zona Sul, quem irá morrer são os mais pobres, as crianças que retomarão para as escolas e levarão a doença para suas famílias. 
 
Para Leandro Valquer, representante do Conselho Municipal de Saúde, o prefeito falta com a verdade quando diz no programa de TV que cuida da população. Contrário à reabertura, ele reforçou a disposição de percorrer todos os CEUs nas próximas semanas para denunciar a ameaça à saúde da população e dos trabalhadores.
 
De acordo com Maciel Nascimento, secretário dos Trabalhadores da Educação do Sindsep, a Prefeitura de São Paulo há uma semana das eleições faz uma escancarada tentativa de ganhar votos,  através de distribuição, para estudantes da rede municipal, de bananas, tablets e 265 mil cartões alimentação até quarta (11/11). “Não vamos reabrir as escolas, prefeito! Temos responsabilidade com a vida”. Ele também lembrou que a extinção de 520 auxiliares técnicos de educação (ATE) das escolas deixando vagos os postos, agrava o risco de retorno das aulas. 
 
Comunidades
 
Sérgio Antiqueira anunciou que nas próximas semanas o barulho será nas comunidades dos CEUs, para alertar a população. Curiosamente, somente aí o secretário-adjunto da Educação entrou em contato com o sindicalista.
 
Antiqueira enviou imagem ao secretário-adjunto da Educação do Município do ato/carreata e adiantou que, independente da gestão receber a comissão de trabalhadores, será encaminhado ainda nesta terça documento com as reivindicações. “Os trabalhadores da Educação não deixaram de trabalhar durante todo esse período, com atividades online, mas para retomar agora sem condições sanitárias nas escolas, testagem dos profissionais, não haverá retorno. Não vamos colocar a vida de ninguém em risco. Haverá esclarecimento para a população, o que haverá são esclarecimentos dos profissionais com a população, e o Sindicato estará lá. Se houver assédio da chefia iremos representar contra a chefia. Já organizamos uma comissão dos analistas de Esporte, de Biblioteca dos CEUs, dos técnicos do Sindsep para monitorar as denúncias e elaborar as representações”.
 
Um coletivo interdisciplinar, formado por servidores da Assistência Social, Educação e Saúde, junto com os trabalhadores estará aqui novamente no dia 19. “Não vamos aceitar pressão, porque preservamos a vida. Estaremos juntos no dia 19”.
 
 
 
 
Dia 19 será unificado
 
“A briga aqui não é por carreira é pela vida. A defesa da vida é para todos”, sublinhou Samara, analista da Secretaria Municipal de Esportes.
 
Os analistas dos CEUs também frisaram que não colocarão suas vidas em risco. “Nós estamos trabalhando em teletrabalho, o que estamos reivindicando é que isso permaneça até termos proteção para poder retomar. Não vamos retornar por objetivos eleitoreiros”, afirmou Wellington, do CEU Caminho do Mar, no Jabaquara, zona Suldeste.
 
Fábio, do CEU Paz, na Brasilândia, zona Norte, acrescentou que é preciso valorizar a vida dos servidores públicos e das comunidades. “Esse prefeito não pensa nas vidas dos funcionários, acham que vai pensar na vida da população?”, questionou o analista, ao pedir aos populares que circulavam para pensarem muito nisso no próximo domingo (15), dia das eleições.
 
Sem diálogo não tem atendimento. Essa foi a decisão do Sindsep e trabalhadores até que o governo dialogue, na Mesa de Negociação Permanente. Para tanto, a luta será ampliada, e no dia 19, além dos analistas dos CEUs, professores das escolas municipais, servidores da Assistência Social e da Saúde retornam à frente da Prefeitura de São Paulo, para um ato unificado a partir das 10h.