Funcionalismo

12 de Maio de 2020 - 15:05

A negligência do Governo Covas exposta na insalubridade para trabalhadores e conviventes em meio à pandemia

Serviço, que abriga centenas de pessoas em vulnerabilidade, é denunciado por falta de manutenção e suspeita de tráfico de drogas

Por Cecília Figueiredo, do Sindsep
 
 
Orientadores socioeducativos convivem entre o medo da exposição ao risco de doenças, em equipamentos da Prefeitura de São Paulo onde trabalham, e o do desemprego. Esse é o dilema contido na denúncia da profissional Maria*, nome fictício que adotamos para preservar a identidade da orientadora que teme perseguição num dos Centros de Acolhida para Adultos em São Paulo. 
 
 
Conviventes sem máscaras.
 
No equipamento, gerenciado por Organização Social Civil (ODC), em convênio com a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads), que oferece 500 vagas a pessoas em condições de maior fragilidade e vulnerabilidade pessoal e social, a profissional denuncia a suspeita de tráfico de drogas no espaço, a insalubridade pra profissionais e conviventes, armazenamento inadequado dos alimentos oferecidos aos abrigados, falta de manutenção, equipamentos de proteção individual e aglomerações. Fácil entender porque muitas delas preferem a rua a uma vaga em uma destas unidades. 
 
 
“O convivente tem que fazer desse espaço um local para que ele adquira sua autonomia, outra perspectiva de vida, com processo de redução de danos…Obviamente é mais difícil, mas se houver ferramentas e oportunidades oferecidas, é possível conseguir recuperar essa autonomia. No entanto, o que tenho observado dentro do equipamento são problemas variados, até denúncia de tráfico de drogas”, relata.
 
A desmotivação com a flexibilização da regra vem aumentando, com a falta de orientações, fluxos e condições salubres diante da pandemia do coronavírus. “Estamos lidando com vidas, nossas de profissionais e dos conviventes. Não vejo essa preocupação. Não há distanciamento entre os beliches nos quartos. Acima das luminárias não há nenhum um tipo de forro nos quartos, banheiros, pátios e refeitório, então os pombos fazem cocô sobre os conviventes dormindo, sobre a gente quando está trabalhando…Já aconteceu de um pombo fazer sujeira na minha cabeça e ouvi conviventes reclamando que também aconteceu com eles quando estavam dormindo. Quem dorme no leito de cima é mais prejudicado. Falta um forro no galpão. Esses animais transmitem doenças!”.
 
 
Pombos estão por toda a parte, incluindo quartos e sala de televisão.
 
Uma das doenças transmitidas pelas fezes dos pombos é a criptococose (desenvolvida pelo fungo Cryptococcus neoformans, presente nas fezes do animal e que quando inalados podem trazer comprometimento inicial do pulmão e à medida que o fungo se desenvolve, consegue espalhar para outros locais do corpo por meio da corrente sanguínea, podendo atingir o sistema nervoso e resultar em meningite). O cocô dos pombos também pode provocar a salmonelose, que é transmitida pela bactéria Salmonella. De acordo com especialistas, as fezes secam e viram poeira, podem ser transportadas pelo vento e ficar presas em frutas e vegetais que, se não forem bem lavados, podem contaminar as pessoas na ingestão.
 
Para a trabalhadora, o público atendido requer um cuidado maior. “Há pessoas bastante desorganizadas por sofrimentos mentais, pelo uso de álcool e outras drogas, e nessa época de pandemia me assusta como isso funciona sem supervisão da Smads”, pontua. Ela também alerta para a falta de manutenção no serviço que ampliou o horário de atendimento.
 
 
Beliches em mau estado amontoadas em quartos, sem respeitar o distanciamento para prevenção do covid-19. 
 
“Porque esse era um atendimento que não funcionava 24h. Ele funcionava das 16h até a manhã do dia seguinte. Tenho ciência que é um momento de adaptação por conta da pandemia, mas a presença de pombos por falta de forro acima das luminárias vem desde o ano passado, ates dessa crise. Outro problema é o entupimento na rede de esgoto. Faltam chuveiros, alguns somente têm água gelada, o que provoca uma fila enorme para o banho. Os conviventes tomam banho e a água fica empoçada no banheiro. Falta torneira para higienização das mãos, falta sabonete líquido, não há toalha de papel, o encanamento está furado sob as pias. Não há materiais de higienização para trabalhadores também, nem vestiários. Na cozinha, se tivesse uma vistoria da Vigilância Sanitária, teria problemas, porque ficam alimentos perecíveis fora da geladeira num ambiente que tem pombos por todos os espaços”, cita. 
 
Segundo ela, já foram registrados problemas de usuários que passaram mal depois de se alimentar.
 
A decretação de Situação de Emergência ocorreu em 16 de março, no entanto apenas no início de maio os trabalhadores receberam máscara, por conta de uma doação. No caso dos conviventes, uns utilizam máscaras de meias, outros não. “Não há uma regra”, diz ela.
 
Sem forro sobre as luminárias, pombos circulam sobre os conviventes dormindo e de quem trabalha no local.
 
A ausência de orientações por parte da coordenação do serviço ou Smads é outro problema pontuado pela trabalhadora. “Para conversar com um convivente eu mantenho a distância, porque já tenho esse hábito, mas não houve por parte da gerência nada de orientação até hoje”. 
 
Nos plantões atuam, em média, 10 orientadores socioeducativos, que tem como funções auxiliar os conviventes, com relação à alimentação, distanciamento social, uso de proteção, rotinas da vida diária. Atividades socioeducativas são raras e por iniciativa dos trabalhadores. “Nosso papel hoje é dividir papel higiênico, entregar sabonete aos conviventes, verificar se não está tendo uso de drogas nos quartos ou banheiros...”, detalha.
 
A partir das 8h, os conviventes têm que estar fora dos quartos, segundo ela, para que o pessoal da higienização possa fazer a limpeza. “Eles não podem ir pra rua, então ficam num pátio aberto após às 8h, jogando bilhar, tênis de mesa ou pebolim, assistindo tevê...E assim passam o dia aglomerados, não fazem a higienização das mãos ao pegar um taco de bilhar e passar para outro... Por volta das 11h50, é organizada uma fila fora do equipamento, por volta das 12h iniciam o acesso apresentando a carteirinha com o número do leito para que seja registrada como entrada. A pressa em se alimentar, causa mais aglomeração!”.
 
Na avaliação de Maria, não há de parte dos conviventes um respeito às regras de prevenção ao risco do coronavírus, pela própria situação de vulnerabilidade. “Nós até alertamos sobre manter a distância entre eles, mas é uma ação proativa dos trabalhadores, porque não fomos orientados pela gerência”.
 
Espaço de convivência, juntos e misturados sem proteção.
 
Desanimada ela diz: “não consigo desenvolver as atividades que acredito como cidadãs, por não ser oferecido uma segurança para minha saúde, aos demais profissionais e aos próprios conviventes”.
 
Posição do Sindsep
 
O Sindsep vê com preocupação que a Smads secundarize a responsabilidade pela saúde dos trabalhadores e conviventes para as entidades conveniadas que gerenciam equipamentos, como o centro de acolhida. "A denúncia mostra claramente o abandono e a falta de condições mínimas de saúde e dignidade", avalia João Gabriel Buonavita, vice-presidente do Sindsep, que afirmou que o sindicato continuará cobrando do governo Covas que garanta a proteção, testagem e condições de trabalho aos servidores e trabalhadores das entidades conveniadas à Smads, assim como os conviventes.