Funcionalismo

19 de Novembro de 2021 - 10:11

Racismo Institucional | Dificuldades de quem sofreu a violência em curar as cicatrizes

A assistente social que entrevistamos, Layla (nome fictício), ainda hoje sente as dores de palavras e práticas racistas. Demitida da OSC no período mais crítico da pandemia de Covid-19, a mãe solo tenta se refazer, apesar dos medos e inseguranças.

Por Cecília Figueiredo, do Sindsep

 

Foto capa: Joca Duarte

 

 

Para a assistente social Layla*, que sempre trabalhou em organizações não-governamentais (ONGs) e organizações da sociedade civil (OSCs), ainda hoje há certa dificuldade para identificar a violência racista a que é submetida, pela naturalização da sociedade.

 

“Ainda é difícil absorver todas as expressões de racismo. Foi tão naturalizado e não existia visibilidade sobre isso, hoje ainda estamos nos empoderando, fortalecendo...A exposição do racismo, com as mídias sociais, nos alerta para várias situações que ocorrem nos espaços. Desapropriada de conhecimento, muitas vezes não percebemos que estamos sendo vítimas de racismo. É algo que me incomoda, que sei que tem que ser rebatido, mas é difícil identificar porque muitas falas ainda são naturalizadas”.

 

Anúncio de 1924, em SP, e para cuidadora de idosos, em 2019, em BH. | Imagens: Biblioteca Nacional Digital e Reprodução/ Agência Senado

 

“Nossa que negra linda!”, “O seu nariz é tão afilado”, “E se você usasse esse produto em seu cabelo para deixar menos armado”. Frases e expressões como essas já foram ouvidas em algum momento da vida (ou em vários) por Layla e muitas outras mulheres pretas. Algumas vezes passam batido no momento, diz Layla, em outras, a opção é calar ante o abuso para manter o emprego e até por ignorar o local/ órgão adequado para levar uma denúncia de violência racial.

 

“Uma das falas mais violentas que me recordo, depois de um processo bastante turbulento que passamos no serviço de medidas socioeducativas [MSE], na zona Oeste, foi a conversa que tive com a gestora da OSC. Após eu revelar que estava me sentindo mais envolvida, fortalecida no trabalho, ela me respondeu: ‘sim, eu preciso te dizer se eu tivesse te mandado embora no momento em que eu entrei no MSE você não teria arranjado emprego em lugar algum; lugar nenhum teria te contratado daquele jeito que você estava”, lembra Layla. A fala teve um efeito destruidor na profissional que estava se reorganizando psicologicamente e que naquele momento, só conseguiu balançar a cabeça.

 

Em sua opinião, a falta de procura para entender as questões étnicas, esse esvaziamento de conhecimento é uma das faces mais cruéis do racismo institucional. A assistente social, que deixou esse ano o trabalho na OSC conveniada à Prefeitura de São Paulo, acompanhava permanentemente 15 adolescentes, com elaboração de relatórios encaminhados à Justiça.

 

“Nenhum relatório que eu fazia nunca estava bom. Havia uma falta de tato da gestora para entender que eu não estava ali na condição de escrever conforme impunha o Poder Judiciário, mas a partir da construção de cada um e da vida que cada adolescente. Houve períodos em que o relatório retornou todo alterado e com minha assinatura”.

 


Poetisa e romancista, Conceição Evaristo fala sobre a escrevivência neste vídeo. Clique sobre a imagem

 

Escrever o que se vivencia

Assim como a escritora e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Conceição Evaristo de Brito, baseou sua criação literária na “escrevivência”, termo que ela mesma cunhou, Layla contava em seus relatórios a experiência de cada pessoa.

Além das práticas de desqualificação e rebaixamento das trabalhadoras sociais, a gestora da OSC embranqueceu a equipe. “Sobrou apenas uma técnica negra. Todas as práticas daquela gestora foram racistas, mas banalizadas pela própria OSC parceira da prefeitura”, relata Layla, demitida após dois anos de trabalho no MSE e exatamente no período mais crítico da pandemia de Covid em 2021.

 

O MSE/MA em que Layla atuava era uma referência negra, atendia a 115 adolescentes e jovens, mas em dois anos passou por três mudanças de gerentes. Layla acompanhava 15 adolescentes e jovens em cumprimento de medidas socioeducativas em meio aberto, de Liberdade Assistida e/ou Prestação de Serviços à Comunidade, determinadas judicialmente. De acordo com texto publicado no site da Smads, “o serviço contribui para o acesso aos direitos violados dos adolescentes e de seus familiares e a resignificação de valores pessoais e sociais dos adolescentes e jovens”. No entanto, “a gestora de parceria da OSC era uma carrasca para a equipe”.

 

O relato de Layla instiga alguns questionamentos. É com essa brutalidade com a equipe de trabalhadoras/es que se busca resignificar vidas? Atingir qual objetivo com essas práticas frias? A manutenção do micropoder? Qual lugar ocupa o compromisso com os direitos humanos e sociais?

 

O fato é que os problemas sociais oriundos da miséria estavam ali associados à desvalorização da equipe de trabalhadores, ao adoecimento e à falta de entendimento da OSC, segundo Layla.

 

“Lidar com essas questões que envolvem os adolescentes e jovens negros, que se não tiverem um serviço de medidas socioeducativas não terão mais nada, além da falta de capacitação, de cuidado com a equipe que cuida desses jovens…nos impactava bastante. Se ater a números? Achar que 15 adolescentes e jovens para uma assistente social é pouco... Estávamos lidando com vidas. A falta de um olhar humanizado dificulta mais o trabalho, adoece os técnicos, incapacita mais”, compara Layla, ao acrescentar que funcionários que trabalham em serviço de medidas socioeducativas não estão em situação muito diferente dos jovens que são acompanhados. “Muitas vezes moram em comunidades e, portanto, são solidários com outros trabalhadores, mas na avaliação são submetidos a uma régua fria”.

 

Um dos momentos mais traumáticos para Layla, que ainda hoje tenta se refazer, foi o período em que uma série de denúncias do serviço começou a ser investigada pela gestora (servidora pública), mas foi interrompida pela troca de quase toda a equipe do MSE. Layla foi uma das poucas que sobrou.

“Eu travei. Adoeci no serviço. Um esforço tremendo, doloroso, não conseguia mais fazer relatórios, organizar as pastas. E esse é um trabalho de saúde mental que ainda estou fazendo. Eu preciso me refazer. Sou negra, mãe solo, tenho que pagar contas e fui demitida em abril, no meio da pandemia. No momento que me dispensaram, junto com outro amigo advogado, ambos pretos, a gestora da OSC disse: ‘não deu para segurar, porque o Creas pediu’”, lembra a assistente social, que, na ocasião da entrevista, contava com a ajuda de amigos para enfrentar as incertezas financeiras.


Layla também desacredita da justificativa dada pela representante da OSC. Segundo ela, a coordenação do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) ficava sabendo das mudanças somente depois que eram efetivadas. "Havia uma briga de poder da OSC com o Creas, que entendia a grandeza de se ter uma equipe constituída por negros e negras, por exemplo".

 

Para ela, o exercício de reconstrução de quem foi vítima de práticas racistas, onde se coloca a ausência de capacidade, é bem difícil.

 


Sindsep na luta
 

Essa chaga que segue sangrando a meia democracia em nossa sociedade precisa ser superada e é por essa razão que o Sindsep segue apoiando a luta das servidoras e servidores, para a formação, empoderamento, denúncia, cuidado e defesa de direitos. É desta forma, que conseguiremos construir, em nosso dia a dia, uma sociedade antirracista, instituições sem racismo e uma verdadeira democracia, que valorize trabalhadoras e trabalhadores, as políticas públicas e os serviços públicos.

 

Para transformar a sociedade do ódio, da desigualdade e destruição é preciso o contrário. A luta deve ser estimulada pelo amor. Como sugere a pensadora, educadora, feminista, artista e ativista social estadunidense, Gloria Jean Watkins, dona do pseudônimo bell hooks (escrito em minúscula mesmo, por escolha de Gloria) no livro “Tudo sobre o amor – novas perspectivas”, o amor é mais do que um sentimento — é uma ação capaz de transformar o niilismo, a ganância e a obsessão pelo poder que dominam nossa cultura.

 

bell hooks defende que através da construção de uma ética amorosa seremos capazes de edificar uma sociedade verdadeiramente igualitária, fundamentada na justiça e no compromisso com o bem-estar coletivo. Com influência da pedagogia crítica de Paulo Freire, bell hooks sugere colocar o amor na centralidade da vida, como ação transformadora, prática libertária, para afastar o medo e a dor.



 

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