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18 de Novembro de 2021 - 10:11

Racismo Institucional | Uma única chefe negra em 7 anos

Dacia, servidora da Política Pública de Assistência Social, admite algumas mudanças estimuladas pela Lei das Cotas, mas comenta em seu relato da invisibilidade, deslegitimação e medo que cercam a luta contra o racismo institucional.

Por Cecília Figueiredo, do Sindsep

 


Beneficiada pela lei de cotas (12.990/2014), que reserva 20% do provimento das vagas efetivas e empregos públicos dos concursos da administração pública federal para candidatos negros e pardos, a assistente social Dacia* permaneceu por cinco anos numa unidade do Cras e hoje atua em outra unidade vizinha, mas no mesmo território Leste. Dacia avalia que a lei de reserva de vagas para pessoas negras e pardas começa a trazer algumas alterações.

 

“Em 2011 fiz estágio num Cras, estava me formando e queria ter um parâmetro, além de organizações não-governamentais e naquele período o que observava era a falta de representatividade de pretos na Prefeitura de São Paulo. A partir de 2014, com a lei de cotas, quando entrei, já consegui visualizar mais pretos e pretas no serviço público”.

 

Mesmo assim, em razão do concurso considerar a pontuação, Dacia diz que o acesso a local mais próximo de onde mora só foi possível pelo movimento realizado junto com o Sindsep.


Dacia também relata ter se sentido mais confortável trabalhando numa equipe de sete, onde a maioria é preta, e que consegue visualizar um pequeno ganho de autonomia no serviço público. “Para usar o cabelo da forma que eu quero, por exemplo. Não presenciei alguém opinando ou questionando a forma de usar o cabelo, uma tatuagem, e isso é um ponto positivo. Diferente de postos na iniciativa privada. No entanto, há um silenciamento e invisibilidade”, compara.

 

Invisibilidade

 

No entanto, os aspectos positivos parecem terminar aí. “Em reuniões de trabalho, uma proposta feita por uma mulher preta só será ouvida, de fato, quando chancelada por outra pessoa branca. Essa é uma situação bastante recorrente no espaço de trabalho”.

 

O racismo brasileiro tem como pilares os quase quatro séculos em que a escravidão africana vigorou. A escravidão se encarregou de posicionar os negros e os brancos em mundos diferentes. Com a assinatura da Lei Áurea, em 1888, as senzalas e os grilhões foram substituídos por mecanismos mais sutis para manter os negros num lugar de subordinação.

 

 


O filósofo, jurista e professor da Universidade Mackenzie e FGV, Silvio Almeida, o racismo foi se metamorfoseando no correr no tempo.

 

"No começo do século 20, por exemplo, estava em voga o racismo científico. No meio acadêmico, havia a ideia de que era o elemento negro que produzia a desordem e as crises que o Brasil vivia na Primeira República. O racismo científico, assim, legitimou o uso da violência contra essa população. Ao mesmo tempo, acreditava-se que a miscigenação seria benéfica para o país porque, nessa mistura, o sangue branco forte prevaleceria sobre o sangue negro fraco e haveria o branqueamento da população. Aquele grupo desestabilizador acabaria sendo eliminado. Sendo mais direto: eugenia. Na década de 1930, o discurso que passou a vigorar foi a da democracia racial. O Brasil seria um país plural, com o branco, o negro e o indígena convivendo em harmonia, todos importantes, desde que cada raça ficasse no seu lugar. Já não se pensava mais em eliminar o negro, mas sim em absorvê-lo e mantê-lo numa posição subalterna”.

 

"No começo do século 20, por exemplo, estava em voga o racismo científico. No meio acadêmico, havia a ideia de que era o elemento negro que produzia a desordem e as crises que o Brasil vivia na Primeira República. O racismo científico, assim, legitimou o uso da violência contra essa população"



Vítima da desqualificação no ambiente de trabalho, Dacia pediu ajuda à Saúde do Trabalhador do Sindsep.

 

Deslegitimação

 

“Algo que me marcou muito, embora tenha sido um comentário de corredor, foi ouvir que a partir de um dado momento o Cras só receberia negros deficientes, por serem os últimos na escolha de vagas. Mas, a pessoa que fez esse comentário até já exonerou. Outra situação é quando um usuário não se contenta com a resposta e pede pra falar com o coordenador, sendo esta uma pessoa negra, o usuário pede para falar com uma assistente social branca. Esse foi um caso que identificamos de racismo explícito”, cita a servidora, que ha 7 anos trabalhando no município teve uma única chefia negra.
 

Medo

 

Mesmo distante a alguns anos dos bancos da universidade, Dacia segue estudando para se fortalecer e identificar o racismo. “Participo do grupo de estudos das gerações étnico-raciais do serviço social [GERESS], onde debatemos e fazemos leituras. Faço parte também do Coletivo de Servidores Públicos em Defesa do SUAS no Sindsep, onde nos fortalecemos, damos respaldo umas às outras. Estudando também conseguimos identificar melhor os problemas que nos agridem”, assinala.

 

Imagem que também está na capa: Sora Shimazaki por Pexels

 

 

O assunto, embora ocupe grande dimensão na vida dos/as trabalhadores/as do serviço público, ainda é tratado com muito temor pelas perseguições.

 

 

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