Funcionalismo

27 de Março de 2020 - 16:03

SP: Profissionais da saúde municipal adoecem por falta de EPI e estrutura

Enquanto o governador João Doria e o prefeito Bruno Covas divulgam hospitais de campanha que estão sendo levantados, ou retomando obras quase concluídas pela gestão anterior e por eles paralisadas há dois anos, como o Hospital Municipal de Brasilândia, trabalhadores seguem adoecendo, afastados ou na luta entre a vida e a morte por conta da falta de orientação, planejamento de estrutura e equipamentos de proteção individual.

Até a noite de quinta (26), um auxiliar de enfermagem do Hospital Municipal Tide Setúbal estava em estado grave, entubado na UTI. O trabalhador é contratado pela organização social de Saúde (OSS) SPDM, que gerencia o Atendimento Médico Ambulatorial (AMA) e parte do serviço prestado no Pronto Socorro.

Duas das três UTIs do hospital se encontravam lotadas e não parava de chegar paciente, segundo um servidor, que pede para sua identidade ser preservada. Por parte da direção, sobram promessas. Uma circular interna avisa que “está em processo de captação novos recursos de EPIs”, e que o hospital “aguarda a chegada de 496 filtros bacteriológicos [para os pacientes]”, que “haverá a contratação, com a máxima urgência pela SPDM, de 280 profissionais para compor as equipes”. Mas, nenhum prazo é indicado.

No kit de EPI entregue na quinta (26), após trabalhadores se recusarem a entrar no plantão sem avental impermeável, havia apenas 3 máscaras comuns (cirúrgica) para um plantão de 12h, duas toucas, dois pares de luvas e um avental impermeável. Luvas não ficam disponíveis no setor.


Kit com 
3 máscaras comuns (cirúrgica) para plantão de 12h, duas toucas, dois pares de luvas e um avental impermeável
 

 

Avental de risco

Situação semelhante é denunciada pelo técnico de enfermagem do Hospital Municipal Dr. Benedito Montenegro, no Jardim Iva, zona Leste. “O avental que é usado pelo profissional que recolhe roupas sujas do expurgo, está sendo dado pra gente, porque não há o apropriado, além de máscaras cirúrgicas para um plantão de 12 horas”, acrescenta o técnico, que enviou um vídeo mostrando a exposição ao risco na retirada do avental improvisado. “Fica metade das costas desprotegida, ele é colocado e retirado pelo pescoço ou então temos que cortar com a tesoura e emendar com esparadrapos atrás, para não se contaminar quando retiramos”.

O servidor acredita que há contenção de equipamentos, mas desde antes da pandemia, a direção do hospital já preconizava o uso do tipo errado de avental. “Na primeira semana da pandemia, nos proibiram até de usar máscara cirúrgica no corredor do hospital, justificando que não havia necessidade”, acrescenta, ao dizer que brigou para usar para atender. Óculos foi assegurado pela Cipa e Medicina do Trabalho para alguns trabalhadores. Na tarde de sexta (27), também acabou na unidade hospitalar o álcool 70% líquido e em gel para higienização.

 

Avental deixa metade das costas desprotegida.

Para não se expor ao risco, profissionais cortam e emendam com esparadrapos, avental com abertura só pela cabeça.

 

++ Assista ao vídeo: Profissionais da saúde recebem aventais que os expõe a risco ao vestir

 

Sobrecarga de trabalho

“Não há também efetivo suficiente de profissionais de saúde para o atendimento. Fechou a emergência para fazer o atendimento de Covid-19, então, os funcionários de emergência foram divididos em duas salas, dois enfermeiros e dois técnicos em cada. No plantão passado, havia cinco pacientes entubados atendidos, mais a demanda que chega pela porta de emergência sob a responsabilidade de dois enfermeiros e dois técnicos. Conforme o Coren estabelece, um profissional deve ficar responsável por um paciente grave”, diz o servidor do Hospital Iva, que tem os setores médico, de triagem e saúde mental gerenciados pela organização social de Saúde (OSS) SAS-Seconci.

A OSS é a mesma que está presente em parte do PS e outros serviços do Hospital Dr. Ignácio Proença de Gouveia, na Mooca, zona Leste, onde as questões de proteção e segurança aos trabalhadores são inadequadas também, assim como a falta de RH e uma reforma em curso. “Usamos um avental que não é impermeável por 12 horas, só se sujar, molhar, é que o almoxarifado vai avaliar se troca ou não”, relata a servidora.


Refeições são distribuídas a pacientes, enquanto operários fazem lixamento de paredes, na obra de reforma


A sala Laranja, observação para atendimento dos casos de covid-19, está lotada, com 10 pacientes, além de três na UTI, até o plantão de quarta (25). “Teria a quarta paciente na UTI se não tivesse ido a óbito, de terça para quarta”, conta a servidora.

Segundo ela, um dos residentes que teve contato com a paciente falecida, está afastado por confirmação da doença e está em isolamento em casa. “Ele usava somente com máscara cirúrgica”, pontua. Há muitos atestados por afastamento entre os profissionais, segundo a servidora.

++ Assista ao vídeo: Aventais de profissionais que atendem pacientes em serviço da zona Leste "não protegem nada"

 

Sem preparo

Os afastamentos também são a tendência no Hospital Municipal Carmino Carricchio, no Tatuapé. Um servidor, que pede para não ser identificado, ressalta a desorganização do serviço. “Se há alguma coisa bem preparada para o hospital receber pacientes de covid-19, somente na cabeça do diretor”, critica o servidor que tem 64 anos, é cardiopata, portanto, do grupo de risco. Ele denuncia que há falta de insumos para segurança do ambiente, equipamentos de proteção individual, de preparo e de profissionais.


A profissional do Hospital Tide Setúbal endossa. “Na terça (24) começamos a receber pacientes de Perus, São Mateus e outros hospitais que não estão recebendo os casos de covid-19. Sem nenhuma organização. Teve um óbito logo no início do plantão e as mães que estavam com seus filhos no colo aguardando atendimento tiveram que esperar na mesma entrada em que saía o corpo”.