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04 de Maio de 2018 - 11:05

Impressões sobre o Acampamento Marisa Letícia em Curitiba

Por Luba Melo Secretária da Mulher Trabalhadora do Sindsep e ativista da AMB (Articulação de Mulheres Brasileiras)

Em um terreno firme e avermelhado, rodeado por árvores típicas do sul do Brasil como as araucárias, foi instalado o acampamento D. Marisa Letícia. O vermelho é a cor predominante nas camisetas, nas bandeiras, nas bocas e na terra.

 

Assim que as caravanas vão chegando já são orientadas sobre o funcionamento do acampamento e como deve ser a postura no espaço, para que todxs tenham um bom convívio.

 

Há uma organização muito interessante dentro das possibilidades. Com divisões de tarefas entre os militantes, sempre respeitando as orientações da equipe de coordenação.

 

Os espaços são bem divididos: espaço dormitório com barracas e barracões, barracão destinado as rodas de conversa, aulas, plenárias, debates e formações. Há uma cozinha bem equipada, boa quantidade de banheiros químicos e banheiros com chuveiro.

 

No acampamento ninguém passa fome, doações estão sempre chegando. As refeições são saborosas e balanceadas, tudo feito com muito zelo e carinho. O café da manhã é sempre servido às 7 horas, antes das 6:30 horas, já organizam as filas.

 

Após o café todos vão em marcha para o "Bom dia, Presidente Lula". Uma emoção indescritível, muitos militantes com lágrimas nos olhos, sobre os olhares atentos dos policiais federais que parecem não entender nossa dedicação a esse ato simbólico.

 

As rodas de conversa são verdadeiras formações, há debates sobre diversidade, gênero, feminismo, luta contra o racismo e sobre as diversas lutas dos movimentos sociais. 

 

Quase todos os dias o acampamento recebe visita de parlamentares como Gleise Hoffmann, Lindenberg Farias. A vereadora de São Paulo, Juliana Cardoso que esteve conosco nesta jornada.

 

A segurança é um ponto fundamental, principalmente após o crime ocorrido na madrugada do dia 28, em que o segurança Jefferson Lima, foi covardemente atingido com um tiro no pescoço. Somos orientados a não sair sozinhos e sempre estar atentos a possíveis provocações. Ainda é terminantemente proibida qualquer tipo de bebida dentro do espaço, como também é proibido música alta.

 

Em meio a famílias com crianças e animais de estimação, idosos, jovens com seus estilos mais diversos. Uma pessoa me chamou atenção, a coordenadora do acampamento.

 

Edna, mulher, negra, alta, com marcas de muito trabalho em seu rosto bonito. Meiga, acolhedora, educada e com uma postura admiravelmente forte na coordenação de um acampamento com quase 500 pessoas das mais diversas origens. Vindas de diferentes estados do Brasil, cada um com sua luta e sua história. Admirei essa mulher desde o primeiro momento, mesmo sem saber muito sobre sua vida, mas consigo imaginar os desafios que enfrentou e ainda enfrenta na construção da resistência em sua jornada de vida.

 

É uma importante liderança do acampamento que se torna um grande instrumento político de luta pela liberdade do presidente Lula, que representa a liberdade de todxs que acreditam na retomada do estado democrático de direito, neste momento em que a democracia nos foi roubada e precisamos retomá-la com muita garra e força.

 

Essa mulher representa todas nós, mulheres lutadoras que com o golpe viram seus sonhos e esperanças se esvaziarem e precisaram buscar dentro de si essa força para continuar nas trincheiras da luta.

 

Não posso deixar de mencionar que o acampamento homenageia uma mulher que lutou bravamente ao lado do seu companheiro por mais de 40 anos. Uma história de amor que se entrelaça a criação do maior partido de esquerda deste país. D. Marisa Letícia, falecida no dia 3 de fevereiro de 2017 em meio a todo esse processo brutal de perseguição política.

 

O acampamento D. Marisa Letícia tem muito a ensinar a todxs que lutam por direitos e construção de uma nova sociedade. Ele é muito mais que um símbolo de resistência, significa nossas próprias vidas que estão em jogo nesse contexto de golpe. Vidas de mulheres, homens, idosos, jovens e crianças que acreditam que jamais poderão aprisionar nossos sonhos.