Saúde

08 de Abril de 2020 - 14:04

Ailton de Souza: Falta de testagem e preparo para atendimento agravam sofrimento e risco de família

Falecido no último dia 1º, com suspeita de COVID-19 não confirmada em atestado de óbito, família segue buscando informações do que teria levado o ex-administrador do Cemitério da Saudade, em dez dias
 
 

 
Por Cecília Figueiredo
 
 
A história do tratamento oferecido a Ailton de Souza, servidor público municipal por 20 anos na administração do Cemitério da Saudade, em São Miguel Paulista, zona Leste, que morreu no último dia 1º deste mês está repleta de lacunas. Durante dez dias em que esteve internado, os capítulos acumulam, na aparência, falta de testagem ou ocultação de resultados, falta de orientação/protocolo em alguns atendimentos, confirma a fragilidade de equipamentos de proteção individual dos profissionais de saúde, que podem ser conferidas em dois vídeos feitos por Vivian Souza, filha do senhor Ailton, e, principalmente, a omissão de informações que pertencem à família: como o prontuário, com resultados de tomografia e outros exames.
 
No dia 8 de abril, Vivian Souza conseguiu retirar o prontuário com exames que seu pai teria feito onde ficou internado. A tomografia realizada no Hospita Municipal Tide Setúbal aponta, segundo ela, "vidro fosco", e a indicação clínica "Suspeita de infecção por SARS-CoV-2 (COVID-19)".
 
 
 
Um outro exame, realizado com amostra coletada no Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM), onde estava internado desde a madrugada de 24 de março, indica resultado indeterminado, conforme a imagem abaixo:


 


Até esta quarta-feira (8), não havia o laudo da testagem para COVID-19, do Instituto Adolfo Lutz, segundo Vivian, entre os documentos obtidos no prontuário de seu pai. Nem sabe ao certo se realmente foram feitos. Alguns profissionais do Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM), onde faleceu, diante da dor da família tentam ajudá-la, mas até este momento ainda pairam muitas incógnitas. Como poderia ser tratado com caso de COVID-19 se não havia o exame conclusivo? O tratamento oferecido foi o mais adequado? Qual foi a causa da morte?
 
“Teremos mesmo que esperar o resultado do Adolfo Lutz para ter certeza, já que foi o primeiro exame a ser enviado”, diz uma funcionária que não será identificada na reportagem. Diante da falta de respostas, a família segue caminhando na incerteza e agora com vários exames nas mãos, cada um numa direção.
 
Palavra de médicos
 
Médicos, de dentro e de outros estados, com quem a reportagem conversou in off, dizem que as chefias orientam a não colocar no atestado de óbito “COVID-19”. A reportagem do Conexão Repórter (SBT), no último dia 6 de abril, por exemplo, reafirma esta informação. Um médico que atestou o óbito de um paciente com diagnóstico de “vidro fosco”, além de tomografia – onde constava “hipótese de alta probabilidade de COVID-19; hipótese de SARS-CoV-2 (COVID-19)” –, diz ao repórter que no preenchimento do atestado não pode afirmar, por se tratar de algo inconclusivo. 
 
Outro funcionário da unidade diz a Roberto Cabrini, do Conexão Repórter, que “a orientação dentro do recinto hospitalar é para que não se coloque a possibilidade do COVID-19 [no atestado de óbito] e sim outras patologias do quadro respiratório”. O funcionário acredita que por “ocultação da verdade”, com objetivo de não assustar os funcionários e população sobre a “alta demanda” de casos da doença. 
 
O seu Ailton também recebeu diagnóstico de “vidro fosco” no exame de imagem realizado no Hospital Municipal Tide Setúbal, primeira unidade onde ficou internado por 24 horas, conforme expõe a conversa de um dos médicos com a esposa e a filha do paciente. 
 
Ailton, que foi transferido pela Unidade de Pronto Atendimento (UPA) São Mateus, onde gripado foi receber, no domingo (22/03), com sua esposa a vacina contra a gripe, tinha em sua radiografia uma mancha no pulmão. Foi então encaminhado pela UPA para internação no Hospital Municipal Tide Setúbal, que é "referência para casos de COVID-19". Na madrugada de terça (24), quando foi transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM), já estava entubado e sedado, como mostra um dos vídeos
 
Apesar das comorbidades (diabetes e hipertensão), que tratava contínuamente no Hospital do Servidor, Ailton de Souza, aos 61 anos, era um homem ativo que não deixava o serviço pra depois. Há mais de 20 anos trabalhando no Cemitério da Saudade, onde foi administrador por muito tempo, ele pediu à esposa por telefone, a uma hora da manhã do dia 23 de março, que levasse suas planilhas do trabalho, na visita. “Ele ligou pra minha mãe disse que estava bem, mas estava no Hospital Tide Setúbal [encaminhado pela UPA São Mateus], e que como tinha bastante planilha de exumação em casa [estava em teletrabalho], que levássemos na visita, para entregar [na administração] no cemitério. Ou seja, quem está morrendo não fica pensando em serviço, né?”, indaga Vivian. 
 
Na segunda (23), às 6h, mãe e filha estavam na porta do hospital, mas não conseguiram entrar, em razão do hospital estar somente atendendo a “casos de COVID-19”. Entre 16h e 19h, Vivian e sua mãe conseguiram conversar com uma profissional de saúde, de nome Rita, que disse ter conseguido uma vaga para a transferência de Ailton para o Hospital do Servidor Público Municipal. Na chegada de uma ambulância, Vivian confirmou com o motorista a transferência. Nesse momento, ela lembra que o médico socorrista entrou no hospital e logo em seguida saiu nervoso, xingando e dizendo que a ambulância “terceirizada pelo governo” queria ferrar com a vida dele [socorrista] porque a direção sabia que era diabético [grupo de risco]”.
 
“O médico [socorrista] xingava muito, dizendo que não iria levá-lo, porque 'estavam matando-o lá dentro [do Hospital Tide Setúbal]’. Ele disse que estavam fazendo tudo errado. Quando me apresentei, ele [médico socorrista] repetiu tudo de novo e disse que se recusava a levar meu pai naquele estado, porque depois ele estaria todo ferrado e que a empresa não daria a mínima pra ele. ‘O governo e essa quarentena vertical está acabando com a vida de todo mundo’. Muito nervoso, o médico entrou na ambulância para ir embora”. 
 
Apreensivas, ela e a mãe continuaram na porta do hospital, quando o diretor do Tide Setúbal, Carlos Veluci, se prontificou a ver o caso do ex-administrador do Cemitério da Saudade. Ao voltar, uma enfermeira disse que não era possível a visita, porque o pai de Vivian estava sedado, entubado e no respirador. Em seguida, ela perguntou se o pai seria transferido para a emergência ou UTI do HSPM, o diretor disse que seria para a emergência. Ambas já estavam desistindo, quando chegou uma ambulância e uma funcionária do Tide informou que a transferência seria para UTI do HSPM. “O meu pai saiu quase meia-noite do hospital, em estado deplorável na maca. E eles afirmaram que ele estava com COVID-19. Um médico mais velho [do Tide Setúbal] finalmente deu informações sobre meu pai, de que seria transferido e foi, mas na quarta de manhã (1º) o telefone tocou e recebemos a notícia que ele havia falecido. A última vez que vi meu pai foi sábado retrasado (28/03)”, lamenta.
 
Primeiro disseram que iriam dar notícias, no HSPM, no dia seguinte. Quando entraram em contato, disseram que somente pessoalmente. Sem informações sobre a evolução do caso e desesperada Vivian postou uma denúncia no perfil de Facebook do Hospital do Servidor Público Municipal, que obteve a solidariedade de servidores e do promotor do Ministério Público. Ela conta que, somente depois do questionamento do promotor de Justiça Arthur Pinto Filho do MP-SP, pedindo esclarecimentos ao HSPM em 24 horas sobre o quadro de saúde de Ailton Souza, a direção passou a dar atendimento adequado e respondeu, “mas já era tarde”, completa. 
 
Houve omissão sobre infecção?
 
Apesar das dúvidas e dos exames, ela descarta a hipótese do pai ter adoecido no trabalho, por falta de equipamento de proteção individual, porque foi afastado para home office ainda em março. “Não acredito que ele pegou no cemitério. Ele não precisava de EPI no cemitério, porque trabalhava na administração. Se tivesse adoecido ali, os amigos que trabalhavam com ele teriam adoecido”, acredita. Porém, Vivian desconfia do tratamento que foi dado a seu pai, em razão inclusive da falta de equipamentos de proteção individual aos profissionais de saúde que o atenderam. 
 
Se de fato Ailton de Souza não faleceu por complicações decorrentes da infecção de COVID-19,  porque então a contratação do funeral, que segue a certidão de óbito, foi classificada como "D3", o que obriga a manter o caixão fechado, gerando uma despedida sem ver os rostos e velórios sem abraços, com menos de 10 pessoas?
 
 
 
O velório foi limitado a uma hora e a presença de dez pessoas....Mas houve bastante gente no pátio do cemitério para acompanhar o enterro, porque ele era muito querido. No enterro, todos os coveiros estavam com EPI: macacão branco, touca, botas, máscaras e luvas; já no hospital, eu tenho vídeos de meu pai entrando e saindo dos hospitais, o EPI era de TNT. Como um profissional de saúde vai cuidar de alguém doente, se contaminar e contaminar sua família?”, compara Vivian.
 
Apesar das informações e protocolos desencontrados, Vivian valoriza o atendimento dos hospitais públicos, “principalmente no HSPM e Hospital de São Mateus, onde a vida inteira fomos bem tratados”. No entanto, coloca em dúvida o preparo dos profissionais para enfrentar a pandemia.
 
Dias antes de ter recebido o prontuário de seu pai no HSPM, Vivian tinha como hipótese para o rebaixamento do quadro clínico de seu pai, o tratamento que ele recebeu. Outra hipótese que ela acalentava é a de que o pai tenha se infectado – embora o atestado de óbito descarte a possibilidade de COVID-19 – na igreja Assembleia de Deus do Jardim Satélite, região de São Mateus, onde era pastor.  
 
Busca de respostas
 
Numa luta interna, Vivian Souza tenta encontrar respostas ao refletir sobre os limites de quem está na linha de frente do atendimento.
 
Muito querido pela família e por toda a equipe do cemitério onde trabalhou, Ailton sempre estava à disposição para ajudar. “Mas não é a doença que está matando a gente, é a política”, sentencia Vivian, ao criticar a postura de descaso dos governos municipal e estadual em São Paulo com relação à saúde da população e de quem atende.
 


* Atualizado no dia 13/04/2020, com a supressão de nomes de pessoas, a pedido da família