Saúde

21 de Abril de 2020 - 12:04

Auxiliar de Enfermagem do HSPM: 'Sem segurança para trabalhar, pedi exoneração'

Rosana Ianicelli Moreira da Silva, auxiliar de enfermagem às vésperas de completar 30 anos de trabalho, 20 dos quais no Hospital do Servidor Público Municipal, leva a capacidade acumulada em função do governo Covas não garantir condições à servidora que integra o grupo de risco conforme estabelece o Decreto de Situação de Emergência.
 
 
 
Por Cecília Figueiredo
 
 
Rosana Ianicelli Moreira da Silva, 58 anos, auxiliar de enfermagem às vésperas de completar 30 anos como auxiliar de enfermagem, 20 dos quais no Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM), pediu sua exoneração no último dia 8 de abril devido à falta de segurança para trabalhar. “Tenho 24 anos, 9 meses e 20 dias de contribuição ao INSS e cinco anos, que eu completaria em maio, na Prefeitura de São Paulo. Juntando os dois daria 30 anos trabalhados. Antes de 2015 éramos CLT, depois passamos para a Prefeitura. É, não sei se vou conseguir me aposentar. Pedi [8 de abril] para averbarem o tempo pra mim, segundo me disseram no RH vai demorar uns seis, sete meses pra sair no Iprem, devido à pandemia”.
 
Elogiada por colegas de profissão, Rosana entrou no HSPM em setembro de 2000. “Trabalhei um ano na clínica cirúrgica, 11 anos no berçário e na UTI Neonatal junto com a Flávia Anunciação [diretora do Sindsep] e agora estava atuando no Pronto Socorro”, conta emocionada a auxiliar de enfermagem, que adora sua profissão, mas não suportou o risco de se contaminar.
 
 
Ao retornar do afastamento de 14 dias por uma gripe forte, em 8 de abril ela foi ao RH e pediu a demissão. “Um dia podíamos pegar as máscaras N95, em outro a ordem era para [a máscara] ser usada somente no gripário… Pensei: é muito risco. Eu até havia comprado a máscara Shield [máscara facial], mas vou ceder para outra colega, porque não temos isso no hospital. O avental não é o adequado, é bem fininho. Fiquei com medo realmente de pegar essa doença, sou de risco, diabética, fumante, e fiquei com medo de me contaminar e contaminar minha filha, meus netos, meu genro, que moram comigo. Foi mais pela falta de segurança pra a gente trabalhar”, reforça, ao falar de sua decisão.
 
 
"Se nós, que somos linha de frente, não temos proteção, não quero virar estatística". | Foto: Arquivo Pessoal
 
 
Com direito apenas aos dias trabalhados no mês, 4/12 do 13º salário e um terço de férias, a história de mais de duas décadas ficará na lembrança, mas a capacidade acumulada será mais uma perda para o serviço de saúde municipal, em função do governo Covas não garantir outras alternativas à servidora que integra o grupo de risco conforme estabelece o Decreto de Situação de Emergência na Cidade de São Paulo.
 
“A gente fica muito exposto. Estava em pânico ao voltar da licença. Não tenho estrutura para pegar isso [covid-19], sei que se pegar será grave, não apenas pela diabetes, mas porque se precisar de um tubo, teria pulmão para aguentar e a gente pode pegar no hospital sim! Tem colegas que estão entubados e médicos que estão afastados por covid-19. Se nós, que somos linha de frente, não temos proteção, eu não quero virar estatística, um número a mais para somar os mortos anunciados todos os dias. Talvez todos se contaminem em algum momento, mas no momento não tenho estrutura psicológica para continuar”.
 
Entre o pão e a vida
 
Apesar da insegurança que avalia a conjuntura política e econômica do país, Rosana não atendeu aos apelos de amigos. “Tenho insegurança no futuro, pela recessão que o país vai passar, o desemprego será grande, mas no momento me sinto mais segura dentro de casa. Não quero retornar mais. Isso mexeu muito com a minha cabeça. Não chegamos nem na metade da curva. A gente não tem material suficiente para trabalhar, nem equipamento para atender o tanto de gente que precisará. Nossa UTI tá lotada e não há tantos leitos. Lá existem apenas 13 leitos que foram reservados. Quer dizer, estamos lidando com um monstro invisível, mas nos outros países estão se ocupando com EPIs adequados e aqui [Brasil] não. Não temos tantos profissionais de saúde para dar conta desse Brasilzão”, reflete a profissional.
 

O relato de Rosana Ianicelli foi ao ar nesta terça (21), por meio do programa Encontro com Fátima. Algumas manifestações pelo Twitter: