Saúde

14 de Abril de 2020 - 14:04

'Cadê o EPI que mostraram na reportagem da TV e disseram que não está faltando?'

Esse é o questionamento indignado que fazem os profissionais de saúde do Hospital Municipal Tide Setúbal, na zona Leste, referência para atendimento de casos de covid-19 e onde ocorreram 10 óbitos dos 31 internados no final de semana.

 

Das 31 pessoas internadas em estado grave, com suspeita de covid-19, no choque do Hospital Municipal Tide Setúbal, em São Miguel Paulista, zona Leste, 10 foram a óbito no final de semana passado. Dentre estes, estava o médico ortopedista do Tide Setúbal, Jaime Takeo Matsumoto. A informação é de funcionários do hospital ao Sindsep, que estão revoltados com a condução do trabalho e risco que estão vivenciando no hospital.

 

Em 31 de março, houve a morte de outro funcionário da unidade, Eduardo Gomes da Silva, auxiliar de enfermagem contratado pela organização social de Saúde (OSS) Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM). Os profissionais informaram também que dois outros médicos de lá estão internados: Severo Aly Rodriguez que se recupera na UTI do Hospital Nippo Brasileiro, e Marco Antonio Ferreira, clínico que atende no Pronto Socorro, e embora seu quadro tenha evoluído positivamente, segue internado no local.

 
“Foi discutido num sábado à noite a transformação do Tide Setúbal em referência para atendimento de casos de covid-19, na terça já estava recebendo pacientes com suspeita de covid-19, sem nem ter dipirona no Pronto Socorro”, critica uma funcionária.
 
Até a manhã de segunda-feira (13), 58 óbitos haviam sido contabilizados por Carlos Alberto Velucci, diretor técnico do Hospital Municipal Tide Setúbal. A informação, negada pelo diretor da unidade a funcionários do hospital, foi dada a Adriano Santos, candidato a vereador derrotado na eleição de 2016, em uma live pelo Facebook em frente ao hospital, na manhã de ontem (13).
 
 
 
Segundo o político, o diretor do hospital disse a ele que dos 58 óbitos no hospital, 57 seguem como suspeitos de covid-19 e um caso foi confirmado. O político cobra informações das autoridades e testagem. 
 
Revoltada, uma funcionária que pede para não ser identificada, cobra os equipamentos de proteção individual para iniciar o plantão desta terça (14). “Acabo de ir buscar meu EPI para trabalhar e mais uma vez me deram capa de chuva. Cadê o EPI que passou na reportagem da TV e disseram que não está faltando? Não estou entendendo. Disseram que chega amanhã [15], mas pelo que entendi da reportagem não era para faltar!”.  
 
Capa de chuva recebida para o plantão de 14 de abril de 2020.
 
Avental em TNT recebido em 14 de abril de 2020.
 
Outra funcionária, mostra em vídeo, que a capa de plástico fornecida é curta nos braços, deixando-a exposta à contaminação. A capa deve ser utilizada para um plantão de 12 horas, ou seja, vestida, retirada para ir almoçar e reutilizada no retorno do almoço. “Esse é o jeito certo para a gente se paramentar e começar a trabalhar? Aí aparece alguém para dizer na minha cara, na cara dos meus amigos do trabalho, que é mentira que a gente trabalha com isso daqui [sacudindo a capa de chuva]? Isso foi entregue hoje pela supervisão [do Hospital Tide Setúbal]”, denuncia.
 
Um terceiro servidor também comenta sobre o avental em TNT, que integra o kit de "proteção" fornecido pelo hospital. No vídeo enviado, ele derrama água para mostrar a permeabilidade do material, quando o recomendado pela Organização Mundial da Saúde e as normatizações de Enfermagem é de um avental impermeável com punhos com elástico, para não haver entrada de aerossois ou partículas contaminantes em contato com o corpo do profissional de saúde. 
 
Na porta de uma das alas do HM Tide Setúbal, o discurso que deveria ser a prática de proteção.
 
 
Quadro de avisos que não se configuram na realidade.
 
Os profissionais também cobram que a direção do hospital e a Secretaria Municipal de Saúde garantam estrutura hospitalar, orientação e testes para todos os funcionários.
 
“A Edjane [Torreão] desmente toda a situação que vem passando os trabalhadores e que temos EPI, mas nesta terça (14) você vê a situação, o trabalhador com capa de chuva plástica. Mostraram no perfil do Tide Setúbal alguns equipamentos que foram doados, como macacão, viseira….mas os profissionais não chegaram a ver nada disso. Pode ter chegado meia dúzia e a gente nem sabe onde foi parar. A direção nos diz todos os dias que os testes estão chegando, isso faz semanas e nunca chega. A Organização Mundial da Saúde orienta que todos os profissionais de saúde sejam testados, mas aqui nos dizem que apenas os trabalhadores que estiverem com sintomas de covid-19 serão testados. Como pode? Todo mundo trabalhando no atendimento e assistência de casos de covid-19, porque o hospital inteiro é para esse atendimento, mas sem EPI, sem proteção e somente sintomáticos vão fazer o teste?”, questiona outra funcionária.
 
A mesma capa de chuva denunciada no dia 4 de abril de 2020.