Saúde

17 de Março de 2020 - 17:03

CER Ipiranga: servidores em situações insalubres

CER IV Flávio Giannotti não garante álcool gel e nem espaço suficiente para trabalhadores em condições vulneráveis de saúde, um dia após prefeito decretar Estado de Emergência
 
 
Em período normal já seria um acinte concentrar 42 trabalhadores num espaço físico que comporta menos da metade, mas em tempos de pandemia do coronavirus é criminoso. Esta foi só uma das muitas irregularidades identificadas pela direção do Sindsep em visita realizada aos trabalhadores no Centro Especializado em Reabilitação (CER) IV - Flávio Giannotti, no Ipiranga, na manhã desta terça-feira (17), um dia após o prefeito Bruno Covas decretar Estado de Emergência na cidade para enfrentar a pandemia do vírus Covid-19.
 
Sala da Regulação concentra 42 servidores dividindo mesas, computadores e espaço com mobiliário. Foto: Cecília Figueiredo
 
 
O Sindsep vem acompanhando, junto com trabalhadores e conselheiros de saúde, e tem recebido diariamente reclamações de servidores que estão sendo assediados, perseguidos, em desvio de função, trabalhando em condições indignas, desde que a atual coordenadora regional de Saúde Sudeste, Nilza Piazzi, decidiu mudar o prédio administrativo da coordenadoria para o imóvel onde funciona o CER IV Flávio Giannotti, que é parte do complexo do Hospital Dia Hora Certa, no bairro do Ipiranga, inaugurado em 2015.
 
DESVIO DE FUNÇÃO
 
“Tivemos que fazer a arrumação das salas em dois dias e sem parar o serviço, ou seja, atendendo a população. Estão sucateando o serviço, prejudicando equipamentos caros que estão sendo removidos de um lugar para outro”, contaram três servidoras de setores diferentes do CER IV. Todas pediram para que sejam preservadas suas identidades por medo de retaliação pela coordenação: “a gente está sendo perseguido aqui”. Muitos servidores assustados com transferências arbitrárias temem denunciar e ninguém recebeu EPI adequado, conforme a gravidade que aponta o decreto do prefeito. Outra reclamação diz respeito à falta de protocolos dos servidores para o atendimento.
 
A diretora do Sindsep, Maria de Lourdes da Rocha Alves (Secretária dos departamentos Jurídico, Econômico e de Pesquisa) reforçou orientações sobre os direitos dos servidores. “Um servidor não pode ser transferido de forma arbitrária. Mesmo no caso de uma emergência, de uma pandemia como essa que estamos atravessando do coronavírus, é um momento emergencial, mas é transitório, depois você terá de ser retornado ao seu local de trabalho”.
 
Ela também esclareceu sobre a decisão judicial das ações diretas de inconstitucionalidade (ADI) do PSol. Após a conversa, um dos servidores abordou a diretora para saber como se filiar ao Sindsep. 
 
DESORGANIZAÇÃO DO SERVIÇO
 
Vários trabalhadores mostraram situações precárias de trabalho a que estão sendo submetidos. “Como fecha a porta dessa sala para fazer o atendimento a um paciente nesse espaço pequeno?”, questiona Lourdes na sala quase sem ventilação, sem espaço para a mesa, cadeira do técnico, armário e cadeira do paciente. 
 
Sala para atender a população sem espaço adequado para cadeirante. | Foto: Cecília Figueiredo
 
A maioria dos servidores reclamou da falta de diálogo e ação arbitrária da coordenadora que submeteu servidores a fazerem a mudança e o atendimento, sem programação. Indignada com a falta de informação e atendimento aos pacientes do CER IV, que perderam a entrada adaptada e bem próxima da via pública, a conselheira da Supervisão Técnica de Saúde Ipiranga e voluntária do serviço de saúde, Carmela Rossatti, mostrou uma maca com um paciente do CER IV chegando ao serviço pela entrada do Hospital Dia Flávio Giannotti – Rede Hora Certa, junto a todos os outros pacientes. “Olha a situação desse paciente acamado chegando”, lamentou.
 
A confusão atinge muitos usuários que chegam a um serviço todo misturado. Um cartaz sinaliza onde está o CER IV, num corredor que também possui consultórios do Hospital Dia. “Uma porta de vidro está prevista para dividir esse espaço, mas o atendimento do CER IV não está visível ao usuário, o que já está trazendo confusão”, diz a gerente. 
 
Desmonte do CER IV Flávio Giannotti confunde população. | Foto: Cecília Figueiredo
 
O Hospital Dia também perdeu 11 salas para o CER IV, de acordo com uma das servidoras. Médicos acupunturistas, homeopatas e até infectologista serão transferidos para outros serviços porque não há mais sala para atendimento, conforme uma das servidoras que pediu para não ser identificada. 
 
SEM ESPAÇO AO LÚDICO
 
Na ala de reabilitação infantil brinquedos ficam amontoados em estantes e o direito ao lúdico parece não ter importância. Onde funcionavam consultórios de dermatologia, acupuntura e infectologia agora passam a ser ambientes de atendimento do CER IV, e menores. Mobiliários e macas sob uma escada do prédio confirmam a perda de espaço e desmonte do serviço.
 
Mobiliários e macas sob uma escada do prédio denunciam a falta de espaço.| Foto: Cecília Figueiredo
 
No andar superior, onde funcionava outra ala do CER IV, agora é compartilhada pelo administrativo da Coordenadoria Regional de Saúde Sudeste e o Posto de Armazenamento e Distribuição de Imunobiológicos (PADI) para toda a região. 
 
INSALUBRIDADE
 
Outras situações graves de insalubridade e risco devido à pandemia foram constatadas no andar. Nenhum dos servidores utilizava EPI, trabalhadores com diabetes e outras doenças – mencionadas no Decreto da Situação de Emergência 59.283, de 16 de março de 2020 – dividindo o mesmo espaço apertado, em mesas compartilhadas ou encostadas para comportar até quatro pessoas. 
 
Fios pendurados, lixeiras amontoadas e trabalhadores dividindo mesas na sala da Regulação. | Foto: Cecília Figueiredo
 
 
“A sala da Regulação e assessoria tem 42 pessoas no mesmo espaço. Os servidores têm que compartilhar o computador e a mesa, também não foi disponibilizado álcool gel para os servidores. O que tem aqui é um pouco de álcool líquido trazido pelos próprios funcionários. Três computadores são divididos por 17 técnicos para agendar vagas de consultas, exames e outros procedimentos”, relata a diretora do Sindsep. Além de fios pendurados pelas paredes e chão, não há quase espaço para que trabalhadores possam se deslocar no “ambiente de trabalho”, com lixeiras amontoadas, pastas e mobiliários que não têm espaço para organizar. 
 
AUDITÓRIO PARA REUNIÕES VIRA AQUIVO MORTO
 
O auditório onde eram realizadas as reuniões do Conselho Gestor do serviço foi transformado em reprografia e arquivo morto. “Controle social não é algo respeitado pela coordenação”, diz a conselheira Olga Quiroga, lembrando que já foi tratada com grosseria pela coordenadora.
 
Auditório onde eram realizadas as reuniões do Conselho Gestor foi transformado em reprografia e arquivo morto.| Foto: CF
 
 
Mesmo assim uma das assessoras da coordenadora, Vilma, defendeu que a mudança foi necessária para economizar o recursoos gastos com locação, “ampliar o espaço do CER IV” e afirmou que todos os médicos estão atendendo. “Mas expandiu o espaço ou diminuiu? A gente quer saber sobre a retirada de consultórios. Foram retiradas salas e os médicos não têm onde atender”, questionou a dirigente do Sindsep. A representante foi evasiva aos questionamentos e justificou que “alguns usuários vão gostar do atendimento de homeopatia em outro local, outros não”, respondeu Vilma.
 
A coordenadora mais uma vez não estava no local para conversar com os conselheiros. 
 
A representante da gestão foi questionada sobre a forma desrespeitosa com que foram feitas as mudanças. “Há muitas perguntas sem respostas. Qual é a economia que está sendo feita? Para onde está indo esse dinheiro economizado? O CER IV perdeu dinheiro? Esse é o espaço preconizado pelo Ministério da Saúde? Uma série de questões que têm de ser respondidas para trabalhadores e conselheiros”, citou Lurdinha à gestora.
 
A representante da CRSS, durante conversa no meio do corredor, disse que deveria ter sido marcada previamente a reunião com a coordenadora que estava no dentista. Porém, a reunião agendada previamente com conselheiros de saúde e sindicato para a tarde de terça (17) foi cancelada. 
 
A vistoria do Sindsep foi acompanhada pelo usuário Antonio Andreotti e pelos conselheiros Remo Vitório Cherubim (Conselho Gestor do CER IV), Olga Quiroga (STS Ipiranga) e Carmela Rossatti (STS Ipiranga e voluntária do Hospital Dia).
 
De acordo com Lourdes, o equipamento foi criado para reduzir o tempo de espera para exames, consultas especializadas, terapias para pessoas com deficiências físicas, intelectuais, visuais, auditivas e múltiplas, além de adaptações de próteses de diversos tipos, incluindo cadeiras de rodas e aparelhos auditivos, e é um dos poucos na cidade nesta modalidade. As salas de atendimento do CER IV foram adaptadas para atender aos quatro tipos de deficiências e não apenas aos moradores da região do Ipiranga, mas de toda a cidade. "E o Sindsep segue questionando o tratamento aos servidores do CER IV e Hospital Dia Flávio Giannotti", avisou.