Saúde

30 de Dezembro de 2020 - 14:12

Cresce número de profissionais de saúde mortos por Covid em São Paulo

Volta a faltar medicamentos, equipamentos de proteção individual, não há testagem e nem valorização à vida e experiência de profissionais que enfrentam há 10 meses pandemia.

Por Cecília Figueiredo, do Sindsep
 
 
 
O aumento de casos confirmados e mortes por Covid-19 não espanta, só confirma o que especialistas anteviam antes do segundo turno: encerrada a apuração das urnas, aparecerão os casos da doença causada pelo coronavírus (SARS-CoV-2). São Paulo é o que concentra cerca de 1,5 milhão dos mais de 7,5 milhões de doentes no Brasil, e já passou dos 46 mil o número de mortes confirmadas por Covid-19 no estado governado pelos tucanos.
 
Se para as famílias que perderam entes ou despareceram por completo a pandemia é tragédia, para os governo Bolsonaro, João Doria e Bruno Covas é janela de oportunidades para seguir “passando a boiada”. Assistem de camarote pessoas padecendo sem leitos, trabalhando sem condições até a morte ou perambulando nas ruas sem emprego, sem casa e sem ter o que comer. Ao mesmo tempo que repassam recursos públicos para empresas que não atendem, como o Iabas no Rio de Janeiro e aqui também em São Paulo.
 
O presidente Bolsonaro demonstra sua completa falta de empatia com a população, trata do tema vacina como commodities, desorganiza o que já deveria estar planejado, ataca a ciência e ideologiza a questão num Brasil que contabiliza quase 2 milhões de vidas perdidas em 2020. Leva o Brasil, antes reconhecido pelo melhor Programa Nacional de Imunização no mundo, à condição de atraso. Nossos vizinhos, como Argentina, Chile, México, Costa Rica já estão vacinando, enquanto o Brasil nem campanha tem planejada. 
 
Tem aumento de salário do prefeito, vice e secretários....
 
Em São Paulo, os governos Doria e Covas desdenham das vidas de trabalhadores/as e da população em geral. Com quase 700 mil doentes pela Covid e superando as 15.500 mortes na cidade, o prefeito Bruno Covas aumentou seu próprio salário para R$ 35 mil, retirando para isso o direito de gratuidade no transporte público aos idosos. Só para citar uma entre tantas aberrações cometidas. 
 
.…mas não tem medicamento para intubação!
 
Ah, também parece não ter dinheiro para compra de medicamentos fundamentais na intubação. É o que relatou um profissional do Hospital Tide Setúbal, referência para atendimento de Covid na zona Leste. Segundo ele, desde a semana do Natal está faltando Propofol, Atracurio, Cetamine e Midazolam. Ao questionar como estão fazendo para intubar pacientes, o profissional silencia. É preciso investigar serviços hospitalares que têm registrado muitos óbitos.  
 
Máscaras? Só doada sem procedência ou racionada
 
E é neste contexto, sem condições de trabalho e de atendimento à população, que os profissionais de saúde, que aqui incluímos de médico ao pessoal da limpeza e segurança, se tornam também alvos preferenciais do vírus. Em menos de uma semana, o Sindsep recebeu quase uma dezena de registros de óbitos. Alguns trabalharam doentes até a morte para não perder o emprego. Parece ironia, mas é isso que o Sindsep vem registrando. 
 
Pessoas que não tiveram nenhuma garantia de prevenção, que estão enfrentando com seus corpos a pandemia. Sem protocolo, sem equipamentos de proteção individual suficiente – racionado no Hospital Municipal Dr. Arthur Ribeiro de Saboya – ou adequados para evitar a infecção – como denunciam trabalhadores do Hospital Municipal Tide Setúbal –, sem testagem e sem valorização – salários que acumulam enorme defasagem porque ano após ano tem 0,01% de ‘reajuste’. 
 
 
Estes foram alguns e algumas profissionais que faleceram da semana do Natal até agora
 
Pressão
 
Na avaliação da secretária dos Trabalhadores da Saúde do Sindsep, Lourdes Estêvão, o aumento importante no número de contaminação e óbitos entre os trabalhadores da linha de frente, principalmente da saúde, resulta do descaso dos governos Doria e Covas, incapazes de reconhecer a importância e protagonismo dos trabalhadores nesses 10 meses de combate à pandemia.
 
“Isso é explícito na falta de EPIs de qualidade e em quantidade suficiente, na falta de RH, testagem e condições de trabalho adequadas. A ausência destas condições também mostra o descaso dos governos com a população que depende exclusivamente do trabalho e da assistência destes profissionais”, lembra a dirigente.
 
Os governos parecem contar com a certeza da impunidade e ausência de pressão popular. Por isso, a única saída é fazer pressão. O Sindsep defende a ação jurídica, mas segue defendendo como a saída mais eficaz a pressão dos trabalhadores e da população, em defesa da vida de todos. 
 
“O Sindsep continuará exercendo a luta em defesa da saúde e da vida dos/as trabalhadores/as, entendendo que assim defende o direito à vida e à saúde de toda a população. Trabalhadores/as e população estarão nas ruas por EPIs, vacinas para todos, condições de trabalho adequadas… Todos/as à luta em defesa da vida de todos/as”.