Saúde

14 de Maio de 2020 - 20:05

Em homenagem à vítima do HM Campo Limpo, Sindsep pede basta a mortes de trabalhadores da saúde

Lourdes Estêvão, dirigente do Sindsep, criticou a Prefeitura de São Paulo, por afirmar que há EPIs suficientes na cidade que lidera ranking de profissionais contaminados.

O Sindsep participou na tarde desta quarta (14) do ato no Hospital Municipal do Campo Limpo, zona Sul, em homenagem ao assistente de gestão de políticas públicas (AGPP), Paulo José da Silva, que perdeu a vida para o covid-19 no dia 1º de maio. 
 
“Não queremos perder mais nenhum trabalhador e a gente só vai conseguir isso se a gente tiver equipamento de proteção de qualidade e em quantidade para todos os trabalhadores, sejam da enfermagem, médicos, administrativos, da limpeza ou segurança. Nós queremos proteção, para que possamos atender aos pacientes com segurança. Basta, basta! Nós não queremos mais homenagens póstumas, queremos celebrar a vida”, alertou Lourdes Estêvão, secretária dos Trabalhadores da Saúde do Sindsep.
 
"Basta de mortes! Queremos proteção para atender", ressaltou a dirigente do Sindsep.
 
Amigos e colegas de várias áreas do Hospital Municipal Campo Limpo - Fernando Mauro Pires da Rocha, realizaram também uma celebração ao servidor e um ato de acolhimento à esposa do servidor, Neusa Moraes da Silva, auxiliar de enfermagem do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). 
 
 
 
 
Em meio a músicas e discursos emocionados, os colegas e amigos resgataram a tristeza da perda, mas também o carinho e aprendizado que tiveram com Paulo da Silva.
 
 
"Fica pra gente esse aprendizado de alguém que tinha tanto amor pelo que fazia". | Fotos: Cecília Figueiredo
 
“Difícil estar na linha de frente. Primeiro contato que o paciente muitas vezes tem é conosco, e o nosso amigo Paulo nos ensinou como é importante nos mantermos unidos e seguir trabalhando da melhor forma. Ele era extremamente profissional. Era o primeiro a pegar o plantão, chegava antes do horário de entrada. Fica pra gente esse aprendizado de alguém que tinha tanto amor pelo que fazia”, contou Aline Gonçalves, coordenadora da recepção do HM Campo Limpo, que pediu uma salva de palmas para o amigo.
 
 
"Ele sempre dizia: eu volto!"
 
Neusa, com quem Paulo viveu por 30 anos, estava bastante emocionada e contou que o marido não queria nem ir para o hospital quando adoeceu. “Ele queria trabalhar e no dia 19, quando o médico disse que ele teria de ser entubado, ele pediu para falar comigo. E eu pedi, como sempre fazia, quando ele saía para trabalhar: volta pra mim! E ele me respondeu: ‘eu volto’”, mas depois de vê-lo no dia 30, ela diz que foi abrindo mão da promessa que ele havia feito. Embora a falta seja intensa, ela agradeceu o carinho, o acolhimento de todos e decidiu seguir na luta contra a pandemia. 
 
 
Sindsep reforça apoio à trabalhadora do Samu, que está na linha de frente do atendimento.
 
A dirigente do Sindsep ofereceu a solidariedade e apoio aos trabalhadores que estão na linha de frente. “Nós não queremos que essa história se repita com outros trabalhadores. Conta com o sindicato. Essa luta é nossa. Precisamos de condições para trabalhar”, disse Lourdes a Neusa.
 
Segundo o auxiliar de enfermagem do Hospital Municipal Campo Limpo e conselheiro do Sindsep na unidade, Douglas Cardozo, há somente no hospital 139 profissionais afastados por suspeita ou confirmação de covid-19, dois óbitos, o que tem trazido muita preocupação aos profissionais. “Temos um aumento expressivo da demanda nos últimos dias, embora haja um atendimento dividido entre os hospitais que são referência para atender a casos de covid-19. O HM Campo Limpo é para casos diversos, não covid-19, mas atendemos a esses casos também. Tem uma UPA 24h acoplada ao hospital, que é referência para covid-19, e os profissionais estão preocupados pelo risco de contaminação”.
 
 
"Sinto muita falta do Paulo", desabafou Neusa, viúva do profissional de saúde que faleceu em maio.
 
São Paulo hoje é o primeiro colocado em número de trabalhadores contaminados por covid-19. Lourdes frisou que a Prefeitura de São Paulo tem reafirmado, nas mesas técnicas e reuniões com o Sindsep, que não faltam equipamentos de proteção individual. “Se não falta EPI, porque temos tantos óbitos e adoecimentos de profissionais? Alguma coisa está errada. A prefeitura tem que rever então qual a qualidade desses EPIs, porque não há coerência entre a afirmação da gestão e o resultado de contaminação de trabalhadores na cidade de São Paulo”, compara.