Saúde

30 de Junho de 2020 - 17:06

Entidades de trabalhadores e movimentos populares reivindicam da gestão Covas transparência e transmissão online de Mesa Técnica

Os manifestantes exigem que haja transmissão em tempo real das discussões para o acompanhamento da sociedade, e garantia de capacidade na resolução dos problemas decorrentes da epidemia da COVID-19.

Por Cecília Figueiredo, do Sindsep
 
 
Dirigentes do Sindsep, SindSaúde, Sindicato dos Psicólogos de São Paulo (SinPsi), Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo (Seesp) e representantes de movimentos populares e do Conselho Municipal de Saúde protestaram na manhã desta terça (30/06), na entrada da Secretaria Municipal de Saúde, pela falta de transparência e soluções dos problemas apresentados nas reuniões de Mesa Técnica. Os manifestantes exigem que haja transmissão em tempo real das discussões, para o acompanhamento da sociedade, e garantia de capacidade na resolução dos problemas decorrentes da epidemia da COVID-19.
 
Mortes aumentam e flexibilização avança
 
Numa rua com várias equipes de GCM, os dirigentes mencionaram as condições indignas dos servidores da Segurança Urbana, que até 20 de maio já teve um aumento de 171% de mortes em relação ao ano de 2019. Na saúde, o aumento de mortes de trabalhadores registradas até o mês passado foi 207% superior ao mesmo período do ano passado. 
 
Indignados Lucianne Tahan, coordenadora da Região Noroeste do Sindsep, e Vlamir Lima, secretário de Política Intersindical e Solidariedade, cobraram em suas falas a testagem dos profissionais que estão à frente da pandemia e denunciaram a entrega para organizações sociais e desmonte dos serviços, como SAMU. “O governo não cuida de quem cuida da população. Nós queremos abertura de hospitais permanentes públicos funcionando 100% e não hospitais provisórios”, reiteraram.
 
Segurança Urbana: até 20/05 o número de mortes foi 171% maior que no mesmo período de 2019. | Fotos: Cecília Figueiredo
 
Os manifestantes também criticaram a flexibilização do isolamento social, pontuando o avanço do número de mortes pela doença. Entre 13 de abril e 22 de junho o número de mortos na cidade de São Paulo saltou de 395 para 1616 mortes. Ciente de que, apesar do avanço, esses sejam números subnotificados pela falta de transparência, o Sindsep cobra do governo a garantia de políticas de transferência de renda para que a população possa se manter em casa.
 
Obedecendo às orientações sanitárias, de distanciamento, uso de máscaras e assepsia de microfone, o ato transcorreu pacífico mas em tom enérgico do lado de fora. Do lado de dentro, a reunião foi encerrada minutos após ter sido lida a pauta de discussão da Mesa Técnica desta terça. 
 
Vaias e críticas ao governo das covas
 
“Disseram que não haviam técnicos para responder aos questionamentos e o coordenador da mesa ficou bravo por causa do nosso ato”, informou Luba Melo, secretária da Mulher Trabalhadora do Sindsep. Em resposta, os manifestantes vaiaram a gestão de Bruno Covas e emendaram: “nós também estamos bravos e bravas porque não aguentamos mais enterrar nossos colegas do serviço público; não são números, são mães, pais, irmãs, pessoas que tinham famílias. Não vamos aceitar a morte dos nossos colegas, por isso viemos aqui”.
 
Rubens, representante da União dos Movimentos Populares de Saúde da cidade de São Paulo (UMPS), denunciou a falta de transparência por parte do governo com os gastos com a pandemia, com hospitais de campanha que abrem e fecham, sem fiscalização e o destino do empréstimo do BID. “Estamos aqui para exigir nossas respostas e o governo não tem que ficar irritado por virmos aqui questionar”.
 
O ex-presidente do Sindsep e conselheiro municipal de Saúde, Leandro Valquer Oliveira, ressaltou que a discussão do coronavírus e flexibilização, na Mesa Técnica, não pode ficar restrita ao governo, por se tratar de interesse público.
 
 
Governo não comparece à mesa técnica, indicando descaso com mortes e adoecimentos.
 
 
Papel da Mesa Técnica
 
A mesa foi instituída para que as entidades e governo discutissem as políticas, o planejamento do trabalho, do tratamento de trabalhadores e população, o manejo da Covid-19, porém há um descaso do governo com o instrumento de diálogo. 
 
“Esse ato é para denunciar que o governo não comparece. O governo não dá respostas. Chega de enrolação. Não há apresentação de nenhum plano de atendimento nas unidades básicas de saúde. Governo não apresenta alternativas da demanda represada de outras doenças nas unidades de saúde. Estamos cobrando aqui o plano para o atendimento. Equipamentos de qualidade e em quantidade para trabalhadores. A gente veio aqui para dizer que o governo tem que respeitar a Mesa Técnica. Protocolo bom é aquele que respeita a vida”, enfatizou Flávia Anunciação, diretora do Sindsep, ao lamentar um governo que “lida melhor com a morte do que com a vida”.
 
 
"Protocolo bom é aquele que respeita a vida”, enfatizou Flávia Anunciação, diretora do Sindsep
 
 
Sobrecarga de trabalho, suspensão de direitos e privatização
 
A suspensão do período de férias e folgas dos servidores públicos foi denunciada pelo coordenador da Região Leste II do Sindsep, Ejivaldo do Espirito Santo. Ele também lembrou que, da mesma forma, a extinção de autarquias pelo PL 749/19, como a Hospitalar Municipal (AHM), vem causando apreensão nos trabalhadores. Segundo ele, o governo Covas não demonstra nenhum interesse para resolver os inúmeros problemas.
 
A inadequação dos espaços de unidades básicas de saúde também foi denunciada. “Tá complicado de se trabalhar. Colegas estão trabalhando em igrejas, porque não há local adequado dentro das unidades, faltam salas, janelas para ventilação adequada, o que prejudica a saúde de trabalhadores e usuários. A vida do pessoal da saúde tá em risco, gente guerreira que está trabalhando mas não tem o tratamento adequado, as condições dignas de trabalho”, acrescentou a secretária-geral do SinPsi.
 
“Além de toda a pressão da pandemia em seus locais de trabalho, os trabalhadores estão sendo removidos contra a vontade. Em maio fomos surpreendidos com a notícia de municipalização do Hospital São Mateus. Ninguém responde a nós e como isso irá acontecer. O mesmo está ocorrendo no Hospital Geral de Guaianases. Os trabalhadores estaduais não sabem o que vai acontecer com eles”, repudiou Valeria Fernandes, diretora do SindSaúde.
 
A justificativa de que a cidade mais rica do mundo não tem condição para conter a pandemia é inadmissível para Laudiceia Reis, coordenadora da Região Sul 1 do Sindsep. “O Brasil é onde menos se testa para Covid-19. Covas e Doria não se diferenciam de Bolsonaro. A política deles é a mesma, uma política de morte. Exigimos que se faça isolamento social e decente, porque essa cidade tem recursos para isso. Temos que ser contrários a eles: fora Covas, fora Doria e fora Bolsonaro”. Laudiceia denunciou também que a equipe de técnicos de Covisa começará a fazer inspeção nas unidades farmacêuticas sem que tenham sido testados, mesmo tendo seis contaminados na Coordenação de Vigilância em Saúde. O que, segundo ela, colocará em risco outros trabalhadores das unidades visitadas. 
 
 
Sobrecarga dos profissionais que estão na linha de frente do combate à Covid-19 e privatização do serviço público.
 
Ana Lúcia Firmino, secretária da Mulher Trabalhadora do Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo (Seesp), reforçou que a sobrecarga de trabalho tem sido desumana, a falta de diálogo e respeito às mulheres trabalhadoras, que são mães e não têm resposta do governo de onde deixar seus filhos. “Precisamos dialogar com as secretarias de Educação e Assistência todos esses protocolos, porque não é só a Saúde que está envolvida. Somos trabalhadoras da saúde, mas precisamos de intersetorialidade das políticas. A gestão precisa ter outro olhar para os seus trabalhadores”.
 
Transparência
 
Para o vice-presidente do Sindsep, João Gabriel Buonavita, a resposta do governo em mais essa mesa técnica deixa evidente que ele não toma as decisões com base em informações técnicas. “Nós vamos voltar e em maior número, respeitando o distanciamento, mas vamos seguir denunciando porque nosso compromisso é com as vidas dos trabalhadores e população da cidade de São Paulo. O governo precisa ouvir o corpo técnico da Secretaria de Saúde e ouvir a representação da sociedade civil. Portanto, senão tiver mudança de rumo na mesa técnica, respeito ao controle social, vamos voltar. Reivindicamos que a Mesa Técnica seja transmitida ao vivo, para que trabalhadores e toda a população de São Paulo saiba como somos tratados. Queremos transparência”.
 
 
"Reivindicamos que a Mesa Técnica seja transmitida ao vivo", afirmou João Gabriel, vice-presidente do Sindsep.