Saúde

12 de Agosto de 2022 - 11:08

Prefeitura desmantela um dos mais antigos ambulatórios da cidade, o AE CECI

Servidores falam de medo, adoecimento e o preocupação com o e tratamento à população por OSs, que visa metas e não atendimento de fato

Por Cecília Figueiredo

 

Há pelo menos quatro anos o Sindsep vem denunciando e, assim, buscando impedir a precarização e terceirização do Ambulatório de Especialidades (AE) Ceci - Dr. Alexandre Kalil Yasbek, na avenida Ceci, 2235, no Planalto Paulista, Zona Sudeste de São Paulo, que tem deixado pessoas completamente desassistidas. No ano passado, o Sindsep mostrou em reportagem (relembre aqui) o desmonte do serviço que impactava as vítimas sequeladas da Hanseníase.

Em pleno aumento da pandemia e falta de vacinas, o Complexo de Saúde AE CECI quase perdeu 150 doses do imunizante contra Covid-19, por problemas estruturais na unidade, que padece da falta de investimento pela Prefeitura de São Paulo. Virava e mexia, pacientes e trabalhadores/as eram obrigados/as a criar alternativas em meio a corredores inundados pelas fortes chuvas sazonais e falta de energia no local.

O Ambulatório, que menos de dez anos atrás tinha perto de 170 servidores/as públicos, conta hoje com metade disso (conforme registro atualizado do CNES) para atender uma região importante de São Paulo, aproximadamente 112 mil habitantes, conforme Censo IBGE 2010, sem contabilizar moradores das regiões Sul e até de municípios vizinhos (Diadema, por exemplo) que utilizavam por mais de décadas o serviço.

Trata-se de um complexo em saúde que já foi estadual, em 1992 foi municipalizado. No período do famigerado PAS (Plano de Atendimento à Saúde) de Maluf/Pitta seu atendimento foi reduzido aos ambulatórios de DST/Aids e Tuberculose, mas retomado quando o SUS começou a ser reconstruído na cidade, a partir dos primeiros anos 2000, na gestão Marta Suplicy.

No AE Ceci há atendimentos ambulatoriais para pessoas com IST/HIV/Aids, tuberculose e hanseníase; problemas auditivos, físicos (no CER II Vila Mariana), que precisam de tratamento odontológico (CEO I), exames de imagem, consultas variadas (ortopedia, neurologia, hebiatria (adolescentes), clínica geral, saúde mental, por meio do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps ad), que deve dispor de psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais, entre os profissionais.

No ano passado, o Ambulatório de Especialidades Alexandre Kalil Yasbek Ceci, vítima do sistemático processo de sucateamento, precarização de serviços, falta de reposição de servidores e melhorias na infraestrutura, passou também a restringir o atendimento de pessoas vinculadas ao atendimento do Caps Ad. A orientação era que buscassem a Unidade Básica de Saúde mais próxima, sob a justificativa de afastamento do médico psiquiatra, porém a orientação continuou mesmo após a volta do médico.

 

PEREGRINANDO COM PRONTUÁRIO EM BUSCA DE ATENDIMENTO

Brisa Valéria Guimarães, que acompanha o ex-marido, Jackson, há 8 anos no Caps do AE Ceci, ficou desnorteada meses atrás quando foi informada que teria de buscar outro atendimento para o tratamento antipsicótico.

“Acho que em maio, na consulta agendada com o doutor Júlio, disseram que ele não poderia ser atendido porque o médico estava de licença, me passaram então para um clínico geral, para trocar a receita dos remédios. Teve problemas, inclusive, na dose. Aí tive que retornar porque a farmácia não aceitou e ele toma duas ampolas injetáveis de Haldol decanoato, além de outro remédio oral. Depois me disseram que o doutor Júlio já tinha voltado de licença, mas não fazia mais parte da unidade. Aí disseram pra eu pegar o prontuário, que demoraria  duas semanas pra ficar pronto, e procurar uma unidade. Fui até a UBS Dr. Geraldo da Silva Ferreira e descobri que não havia psiquiatra. Fiquei desesperada”, conta a acompanhante de Jackson, que sofre de problemas cognitivos, esquizofrenia, alterações no humor e na libido, quando está em crise.

Embora não vivam mais uma relação matrimonial, Brisa hoje cuida do ex-companheiro pela dependência de Jackson e dos surtos que já o levaram a ser espancado por pessoas que não entendem a psicose crônica. “Ele nunca me agrediu porque eu contorno, mas quando está para vencer o dia da dose do remédio já percebo as respostas mais agressivas, a perna tremendo. O grande problema dele é mexer com as mulheres e numa dessas mexeu com uma pessoa e foi levado para a favela como estuprador. Tirei ele de lá muito machucado, levei para o Saboya, onde ficou 70 dias internado e foi diagnosticado com esquizofrenia e atraso mental. Foi lá que conseguiu o encaminhamento para obter o LOAS [benefício]”, acrescenta.

MÉDICO TEM VÍNCULO COM JACKSON

A situação é muito difícil, diz Brisa, “porque Jackson não tem ninguém; ele virou meu filho”. “A partir do momento que meu nome está vinculado ao dele, eu não posso ter mais nada de benefício, então esse atendimento aqui no AE Ceci, com o doutor Júlio tem que continuar, porque ele tem vínculo com o Jackson. E voltamos a ser atendidos pelo Júlio, que já estava de volta, mas não estavam abrindo a agenda dele, porque um dos funcionários de atendimento e as meninas [administrativo] avisaram para trazer o Jackson de volta à unidade”.

Assim como a agenda do médico psiquiatra que, mesmo estando dentro do consultório, muitas vezes não recebia os seus pacientes, outras especialidades também não recebem agendamentos devido à falta de informação à população, de reposição de servidores e política de esvaziamento do serviço de saúde.

A estratégia para desmontar o setor de saúde mental do Ceci está sendo estendida a outras especialidades e atingindo em cheio trabalhadores e população.

FANTASMA DA TERCEIRIZAÇÃO

Para os servidores, o fantasma da terceirização não está enterrado. “Essa unidade existe há mais de 70 anos e ultimamente vem diminuindo muito, parece que para esvaziar a unidade de forma proposital, os trabalhadores também estão sendo oprimidos, com agendas sendo fechadas e a população está desesperada, chora, liga pra gente. O atendimento da saúde mental foi retirado de forma abrupta, sem discutir com conselho gestor. O paciente não pode sair por aí, procurando atendimento. Estamos pautando isso no Conselho Gestor, porque o governo não pode passar para outra unidade a saúde mental. O paciente tem vínculo e não houve nenhuma discussão com o Conselho Gestor. Já encaminhamos documento para o Ministério Público e Conselho Municipal, porque há que se ter uma solução adequada”, denuncia Sandra Maria Pereira Ferraz, servidora pública aposentada no AE Ceci na enfermagem e que hoje integra o Conselho Gestor da unidade.

Em maio, exatamente quando ocorreu o problema relatado por Brisa, Cláudia de Crescenzo, diretora da assessoria de relações do trabalho da Secretaria Municipal de Saúde, informou por email que o AE Ceci não seria mais transferido para o CER Vila Mariana, assim como as duas unidades não incluídas na renovação do contrato de gestão (março a agosto de 2022), no entanto há um processo de esvaziamento da agenda de outras especialidades, assim como denunciado com a saúde mental, e a transferência de profissionais segue.

“Embora não haja nada certo, a todo momento ouvimos o mesmo discurso de que o Ceci será o próximo a ter gestão de uma OS, então nosso receio enquanto trabalhadores é para onde iremos. Temos um modo de trabalhar com a população e vamos perder essa autonomia, porque chegará uma instituição que trabalha com estatísticas, e para nós a população não é estatística, tem que ser atendida de acordo com suas necessidades”, desabafa uma servidora pública, que terá sua identidade preservada para evitar retaliações.

Os trabalhadores do AE Ceci estão incrédulos sobre a possibilidade de frear o processo acelerado que tomou o desmonte no governo Doria/Covas/Ricardo Nunes. “Quando foi retirada a UBS daqui de dentro do Ceci, o atendimento sofreu uma queda. É um equipamento que tem mais de 80 anos, a população atendida pelo Ceci estava acostumada. Poderíamos diminuir o fluxo de atendimento da UBS Milton Santos [para onde os usuários foram transferidos em seu atendimento], para que grande parte da população volte para o Ceci e fique satisfeita”, cita outra servidora.

Um terceiro servidor cita ainda que nessa gestão, o Ambulatório de Especialidades recebeu um médico cirurgião para realizar pequenas cirurgias, mas como não havia “sala preparada”, o profissional ficou sem função e “o perdemos, assim como um tomógrafo comprado e que foi para outra unidade”.

Enquanto a saúde de São Paulo padece pela falta de várias especialidades importantes, algumas que são gargalos no SUS, como ortopedia, no AE Ceci há dois destes profissionais disponíveis, além de cardiologista, vascular, dois dermatologistas, três oftalmologistas, dois psiquiatras, dois neurologistas, uma hebiatra, uma endocrinologista próxima de se aposentar, pneumologista infantil, ficaram mais de um ano sem uma reumatologista, que está para voltar, há tisiologista para cuidar de casos de tuberculose.

“Os profissionais atendem a demanda, mas o ambulatório atendia com mais profissionais que hoje está sendo reduzido. O acesso aqui é muito mais fácil, porém foram retiradas várias especialidades, profissionais estavam afastados, então a população deixou de vir, outros estão para se aposentar, como é o caso da endocrinologista, que cuida de pessoas com diabetes e se não houver reposição terá que se deslocar para Vila das Mercês, que não é acesso fácil e rápido, além de retorno muito demorado”.

POSIÇÃO DO SINDSEP

Está em curso um processo de desmantelamento das políticas públicas, nas três esferas de governo.
"Não há investimento suficiente, há sim uma desvalorização e perseguição dos servidores e sucateamento dos espaços físicos onde a população é atendida pra sinalizar e fortalecer que o serviço público é inadequado, de péssima qualidade e que se faz urgente a terceirização", explica a coordenadora da Região Sudeste do Sindsep, Maria Motta.

A dirigente avalia que uma unidade de saúde com o histórico do Ceci, exaustivamente atacada, escancara que a população não é prioridade. "Impedir e/ou dificultar que médicos especialistas atendam seus pacientes, encaminhando-os para unidades sem profissionais suficientes para ficarem em lista de espera, é no mínimo desrespeitoso, muito embora, eu considere um crime, por colocar em risco a saúde desses pacientes que já apresentam dificuldades para se vincular e aderir ao tratamento", acrescenta Motta.

A saúde mental passou por um amplo debate e avanços na socialização, decorrentes da luta antimanicominal, e hoje não podemos permitir retrocessos. Segundo Maria, se há pessoas que necessitam do atendimento no Caps do AE Ceci e especialistas disponíveis para o atendimento, essa conta fecha.

"A defesa que fazemos é por serviços públicos de qualidade, com servidores de carreira para atender a população local. Somos contra toda forma de terceirização e continuaremos junto com os trabalhadores, Conselho Gestor e usuários em defesa do CECI", finalizou Maria Motta.