Saúde

21 de Abril de 2020 - 14:04

Pressão e risco afastam trabalhadores dos hospitais municipais em São Paulo

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Conforme levantamento da Prefeitura de São Paulo, em média 98 profissionais da saúde se afastam diariamente.

 

 

Por Cecília Figueiredo

 

Dos 3.336 profissionais afastados por suspeita do novo coronavírus, a Prefeitura de São Paulo declarou que 532 foram confirmados. Mas, o número pode ser ainda maior, já que 98 profissionais da saúde se afastam diariamente pela contaminação do covid-19 ou problemas derivados do exercício profissional.

 

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Uma auxiliar de enfermagem do Hospital Proença de Gouveia, na Mooca, foi afastada por estresse. Na entrega do documento, a funcionária tomou ciência que não é era primeira, mais de 50 colegas foram afastados por suspeita de covid-19 ou outras decorrências da falta de condições de trabalho.

 

O psiquiatra que solicitou afastamento por 15 dias diz a ela que “está muito nervosa e envolvida com a situação [dificuldades do hospital], sem conseguir relaxar”, relata a funcionária, que pede sigilo em sua identidade.

 

"Estamos largados"

Caso semelhante também atingiu Valquíria*, profissional médica há 25 anos no Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM), que sofre de asma, doença coronariana, mas está há dois anos de completar os 60 anos de idade. Baseada no Decreto de Situação de Emergência, ela buscou com a chefia do hospital ser remanejada de setor pela sua saúde, apresentou a carta de seu médico para a direção, mas não teve êxito.

 

Valquíria também buscou conversar, expondo a insegurança frente à falta de proteção dos EPIs de baixa qualidade. Com dois vínculos empregatícios na unidade, o hospital se negou a garantir dois kits de EPI. “Sendo uma pessoa só, só tem direito a um [kit]”, justificaram eles para a médica. O único local que ofereceram a Valquíria foi o Pronto Socorro. Era aceitar ou entrar de licença. “Voltei ao médico e ele me deu licença por 30 dias”, relata.

 

Na falta de estrutura do hospital e EPI para trabalhar, problemas que já vinham sendo apontados bem antes da explosão da pandemia, como em reunião do Conselho Gestor com a Superintendência do HSPM na primeira quinzena de março, a única alternativa foi o afastamento que termina em maio. “Ou ficava na porta do Pronto Socorro e arriscava minha vida ou me afastava”, pondera a profissional, que planeja pedir a sua aposentadoria quando retornar.

 

“Falta protocolo de atendimento, equipamentos de proteção individual adequados. Poderia existir a Telemedicina e não existe no hospital. Profissionais como eu poderiam ser aproveitados no atendimento ambulatorial por telemedicina, mas não são, porque não existe”, afirma, ao acrescentar que este tipo de atendimento não produz gasto extra.

 

"Eu poderia ser melhor aproveitada no atendimento"

 

Na sua opinião, a realidade mostrada pela gestão municipal na televisão e jornais é contrária a vivenciada pelos profissionais nos serviços. “Estamos largados, ninguém orienta nada. E o mais grave é que estão querendo fechar setores [do HSPM], como a pediatria. Juntar com o setor adulto, onde não há nem lugar para lavar as mãos. Como atender em um lugar que não tenho nem como fazer assepsia?”, questiona.

 

Em duas décadas e meia, esta é a primeira vez que Valquíria diz se deparar com uma chefia que não abre espaço à negociação, que não respalda a equipe de profissionais. “Eu sai não por minha vontade, mas por uma pressão muito grande de quem cuida de minha saúde ter orientado que eu não poderia continuar num local correndo risco. Me chateio porque eu poderia ser melhor aproveitada no atendimento”.

 

Foto de capa: Artur Moês - Coordcom/UFRJ

 

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