Saúde

20 de Março de 2020 - 17:03

Profissionais do HSPM, sem EPI e trabalhando no improviso, temem risco com caso confirmado de Covid-19

Na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM) o “isolamento” entre pacientes sem e com infecção confirmada para Covid-19 está sendo feito com “cortinas plásticas improvisadas”. Os profissionais de saúde atendem na unidade paramentados com avental descartável e não impermeável, além de uma máscara disponibilizada por semana. No Pronto Socorro, profissionais trabalham sem máscara e sem avental.
 
Esse é o resumo do relato preocupado de um profissional de saúde da UTI do HSPM ao Sindsep, nesta sexta-feira (20), em razão da situação desprotegida que se encontram os trabalhadores da saúde e dos pacientes. O relato expõe uma série de inconformidades com as recomendações do Ministério da Saúde.

MINISTÉRIO DA SAÚDE RECOMENDA
 
Sobre o uso de máscara e outros equipamentos de proteção indivual (EPI), por exemplo, conforme recomendações do Ministério da Saúde, os profissionais que atendem casos suspeitos e confirmados de Covid-19 devem usar a máscara cirúrgica, para evitar a contaminação da boca e nariz por gotículas respiratórias, quando atuar a uma distância inferior a um metro do paciente suspeito ou confirmado. Isso inclui aqueles que atuam na classificação de risco.
 
Porém, no HSPM, o servidor relata orientação diferente da chefia. “Temos casos suspeitos de Covid-19 e não estão dando os equipamentos de proteção individual (EPI) necessários aos profissionais”, diz o profissional que prefere manter preservada sua identidade. "A chefia", segundo ele, orienta aos profissionais do PS para "não usarem máscara". 
 
"Como o PS tem atendimento 'porta aberta', não sabemos quem estamos recebendo, quem está ou não infectado. Nem avental descartável ou máscara estão deixando usar. Os profissionais da recepção, onde é feita a ficha para atendimento no PS também estão sem máscaras. Estamos submetidos a condições insalubres de trabalho, expondo nossas vidas", diz.
 
Conforme recomenda o Ministério da Saúde, no atendimento a pacientes, devem usar máscaras os profissionais de saúde “que atuarem em procedimentos com risco de geração de aerossol nos pacientes com infecção suspeita ou confirmada pela Covid-19”. A recomendação estabelece ainda: “Essa máscara deve ter eficácia mínima na filtração de 95% de partículas de até 0,3 (tipo N95, N99, N100, PFF2 ou PFF3) e ser utilizada sempre que realizados procedimentos geradores de aerossóis, como, por exemplo, intubação ou aspiração traqueal, ventilação não invasiva, ressuscitação cardiopulmonar, ventilação manual antes da intubação, indução de escarro, coletas de amostras nasotraqueais e broncoscopias”.
 
Diferente da recomendação, os funcionários da UTI do HSPM entraram em pânico com um caso confirmado de infecção por Covid-19 de paciente que chegou da Itália. “Acabo de saber que o paciente da UTI do sétimo andar veio da Itália e que em sua tomografia deu [positivo] para corona. Os funcionários da UTI estão em pânico, porque não tem EPI para nos protegermos. Somente o avental amarelo [não impermeável] e 1 máscara por semana. Os funcionários estão querendo se rebelar”, relata o profissional nesta sexta (20).
 
As cortinas para isolamento dos pacientes são sacos plásticos (utilizados para armazenar roupa suja) emendados com esparadrapos, pelos próprios profissionais, e não há pia para higienização das mãos no PS.
 
 
Cortinas para isolamento dos pacientes são sacos plásticos emendados com esparadrapos
 
“O avental deve ser impermeável de mangas longas e deve ser removido e descartado após a realização do procedimento e antes de sair do quarto do paciente ou da área de assistência)”, conforme exemplo destacado na orientação do Coren-SP para a enfermagem.
 
Outro gerador de preocupação entre os profissionais de saúde no HSPM refere-se à demora no resultado dos exames dos pacientes pra confirmação dos casos suspeitos.
 
Falta de alertas por parte dos profissionais à gestão do HSPM não é. Além das cobranças da Cipa no HSPM, no último dia 10 de março, durante a reunião do Conselho Gestor da unidade, esse foi um dos pontos de pauta levantados por médicos e outros profissionais de saúde, durante a mesa que discutiu os problemas ocasionados pela terceirização e falta de profissionais concursados.
 

Profissionais do HSPM se queixam da falta de EPI.

 
REFORMAS
 
Os trabalhadores do HSPM estão vivenciando a pandemia do coronavirus em meio a obras de reforma no hospital. "Não houve antecipação por parte da gestão para enfrentar essa crise por um hospital em área central, estamos trabalhando com obras de reforma. Há reforma no 12º andar, na geriatria com os pacientes lá dentro, em condição bastante caótica, com barulho, poeira....O 4º andar, que se tornou uma enfermaria de retaguarda para pacientes sintomáticos-respiratórios. O antigo centro de convivência para os funcionários está sendo reformado para que todos os sintomáticos-respiratórios sejam atendidos, e a queixa é que querem misturar crianças e adultos nesse mesmo local. É improvisado. Está sendo feito para que se possa entregar a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) rapidamente", disse Flávia Anunciação, representante da unidade e diretora do Sindsep.
 
Segundo a dirigente, o temor dos trabalhadores de saúde do HSPM é que Pronto Socorro Infantil  seja transferido para dentro do prédio central. "Somos contrários em priorizar a entrega da UPA, sem considerar instalações adequadas para atendimento das nossas crianças", destaca.
 
 
 
Reforma no HSPM, para abrigar a UPA, começou em novembro de 2019. | Fotos: Daniela Avancini/Dayane Tavares - HSPM