Saúde

13 de Maio de 2020 - 17:05

'Quem salva uma vida, salva o mundo todo': uma homenagem aos trabalhadores da saúde no Hospital Saboya

Durante a homenagem em frente ao Hospital Municipal do Jabaquara, foi lida mensagem do rabino Alexandre Leone criticando a postura genocida do governo Bolsonaro e de descaso dos governos Covas/Doria.

O Sindsep realizou nesta quarta (13) mais um ato “Pela Vida e Proteção dos/as Trabalhadores/as da Saúde”, em frente ao Hospital Municipal Doutor Arthur Ribeiro de Saboya (HM Jabaquara), para homenagear na figura da auxiliar de enfermagem Ester Solomovici, vítima do covid-19, outros profissionais de serviços essenciais que vêm perdendo suas vidas no município de São Paulo, pela falta de testagem, equipamentos de proteção individual (EPIs), protocolos de orientação e, inclusive, pela falta de sensibilidade do governo para remanejar para o teletrabalho servidores que atuam em equipamentos fechados da Educação.
 
Sérgio Antiqueira, presidente do Sindsep, criticou a demora da Prefeitura de São Paulo em cumprir o que foi acordado no último dia 23 de abril. O dirigente lembrou que em 23 de abril, durante a reunião de interlocução direta com a Secretaria Municipal de Saúde – determinada pela juíza da ação civil pública que foi ajuizada em 26 de março pelo sindicato –, ficou acordado que a cada 10 dias a administração iria atualizar informações sobre as compras, distribuição e recebimento de EPIs, por meio do Diário Oficial. 
 
“Passados 20 dias, nós não tivemos as informações. A gestão assinou um acordo, mas descumpriu. Nós já passamos isso para o Ministério Público, para inclui na ação civil pública sobre o descumprimento do que foi assinado, que estabelece além do número de trabalhadores adoecidos, da direta e terceirizados, o ciclo de compra e distribuição de EPI”, denunciou o dirigente.
 
 
 
 
Durante a homenagem, foram lidos os nomes de profissionais que perderam suas vidas no enfrentamento à pandemia do coronavírus. “É muito triste saber que essa trabalhadora do Hospital Saboya, que morreu no dia 25 de abril, e perdeu sua mãe no dia 23, possivelmente contaminadas pela falta de proteção. Nosso lamento é para que a gente tenha condições de trabalho e de voltar para casa sem medo de contaminar nossas famílias. Exigimos equipamentos de proteção individual de qualidade e em quantidade, porque queremos trabalhar, mas seguir vivos”, salientou o vice-presidente do Sindsep, João Gabriel Buonavita.
 
Mensagem do rabino Alexandre Leone
 
O dirigente também leu a mensagem enviada pelo rabino Alexandre Leone, que criticou a postura genocida do governo Bolsonaro e de descaso dos governos Covas/Doria.
 
“Estamos aqui para homenagear as memórias de Ester Solomovici, 69 anos, auxiliar de enfermagem do Hospital Doutor Arthur Ribeiro de Saboya, e de sua Netti Solomovici, de 87 anos, que era sobrevivente do genocídio nazista. As duas, mãe e filha, faleceram em virtude da complicação do coronavírus. A mãe, Netti, morreu no dia 23, e Ester no dia 25, mas suas mortes não foram mortes naturais. Ambas são vítimas do descaso, que tem ceifado a vida de muitos profissionais de saúde, bem como de seus familiares, em nosso país nesse momento de pandemia. É triste que quem sobreviveu a um genocídio, como a senhora Netti Solomovici, ser vítima do descaso do governo Federal, que promove o genocídio nesse país. Com o seu nagacionismo, que não apenas atrapalha o combate da doença, mas também debocha das vítimas e de suas famílias. Mesmo em nível local, ainda que a pandemia não seja negada, as condições precárias dos profissionais de saúde junto com suas famílias, tem ceifado a vida de heróis e heroínas que ajudam a salvar vidas, como a de Ester Solomovici. Que a memória dela conscientize a gravidade desse momento e promova uma atitude valorizada da vida humana, pois como a tradição judaica diz: ‘quem salva uma vida, salva o mundo todo. Toda a vida é sagrada. Cada vida conta!”.
 
Na avaliação de Sérgio Antiqueira, a falta de compromisso com a vida de trabalhadores e população no geral, agudizada no momento da pandemia, reflete a política de desmonte do Sistema Único de Saúde (SUS), na Atenção Primária, no atendimento hospitalar e ambulatorial.
 
“Uma substituição do sistema universal que vimos construindo desde a década de 1980 para um modelo que cada vez mais insere dentro do setor público o setor privado. Saúde não é mercadoria, é dever do Estado. Esse momento de pandemia revela o alto preço desse desmonte. Entre 2017 e 2018 tivemos que ir ao Ministério Público brigar para que não houve a desestruturação da saúde, porque o governo Doria [prefeito à época] queria reduzir de R$ 10 bilhões para R$ 6 bilhões o orçamento da saúde”.
 
Antiqueira classificou os hospitais de "campanha eleitoral”, por meio dos quais o governo tem o objetivo de ampliar o alcance das organizações sociais, que estão entrando de forma acelerada nesse momento nas unidades de saúde e hospitais, por meio dos governos Covas/Doria. A retirada das bases do SAMU, tentativa de desestruturação da Assistência Farmacêutica e de outros serviços resultam nessa situação trágica que impõe a trabalhadores o risco de contaminação e morte, sem testes e proteção.
 
“Temos imagens acumuladas de trabalhadores recebendo capas de chuva, improvisando sacos de lixo para se proteger, que foram denunciadas e levamos à imprensa. Porém, isso foi respondido com retaliação. Tivemos cinco afastamentos de servidores do HM Tatuapé. É assim que a Prefeitura age, com quem reclama por não querer adoecer e morrer”, acrescentou.
 
Luba Melo, secretária de Mulheres do Sindsep, vê também a negligência dos governo Federal, Estadual e do Município, que tratam a crise sanitária como uma “gripezinha”, que necessita de financiamento e ações incisivas que protejam trabalhadores que estão em áreas essenciais e aqueles que não estão em áreas essenciais, mas que estão morrendo e adoecendo por serem submetidos ao trabalho presencial em serviços fechados, se expondo ao risco e às suas famílias.
 
“Temos hoje quase 100 trabalhadores mortos e 12 mil afastados da área de enfermagem no Brasil inteiro. Essa realidade é muito triste, mas gostaria de lembrar que antes da pandemia, as políticas públicas já haviam sido atacadas e atravessavam um momento difícil pela Emenda Constitucional 95, que congelou gastos com saúde, assistência social e educação por 20 anos. Mais de 60% da saúde na cidade está privatizada, nas mãos de OSS. Os trabalhadores e trabalhadoras vêm sofrendo sem EPI desde o início da pandemia nos hospitais e incluímos aqui pessoal da segurança, limpeza, áreas operacionais”, criticou, ao completar que a pandemia revelou a fragilidade do regime. "O capitalismo está nu, como disse o ex-presidente Lula, e a única forma de salvar vidas é ter mais Estado".