Saúde

06 de Abril de 2020 - 18:04

Realidade dos hospitais que Covas se recusa a ver: falta de EPIs e desespero dos trabalhadores

Trabalhador do serviço de saúde que está na UTI, atendendo em isolamento ou nas emergências deve estar paramentado, no mínimo, com avental impermeável de punhos com elástico, luvas, máscara N 95 para 12h, gorro e óculos de proteção ou proteção facial. Isso é o que estabelece a Organização Mundial da Saúde e as demais autoridades sanitárias. Porém, continua sendo o mundo ideal para trabalhadores que acolhem os pacientes com COVID-19, nos hospitais municipais de Ermelino Matarazzo, Itaquera e São Miguel.
 
Entre sexta-feira (3) e esta segunda (6), as denúncias que o Sindsep recebeu sobre os equipamentos de proteção individual confirmam o porquê servidores estão cada vez mais desanimados em continuar colocando suas vidas em risco. Sem equipamentos de proteção individual e treinamento para atender aos casos do coronavírus que chegam aos serviços de saúde, eles temem ser mais um na estatístico de óbitos e se afastam.
 
De acordo com levantamento do Sindsep, a partir de dados publicados no Diário Oficial, houve um aumento de 111% no número de licenças por 15 dias de servidores da saúde, na comparação entre a primeira quinzena e a segunda de março. O número de licenças saltou de 360, entre 1º e 14 de março, para 761 no período de 15 e 28 de março. 
 
A Prefeitura de São Paulo não atende às reivindicações dos trabalhadores e segue enrolando o Sindsep, mas as denúncias não vão parar.
 
Hospital Planalto
 
No Hospital Municipal Professor Dr. Waldomiro de Paula, conhecido como Hospital Planalto, em Itaquera, na zona Leste, a máscara utilizada pelos plantões mais se assemelha a um filtro de papel. O funcionário que enviou a imagem diz que esse é todo o equipamento de proteção individual fornecido pela direção do hospital.
 
 
 
Hospital Tide Setúbal
 
No Hospital Municipal Tide Setúbal, em São Miguel Paulista, zona Leste, os profissionais de saúde que atendem na unidade de referência para os casos de COVID-19 receberam capas de chuva no lugar de aventais impermeáveis, toucas e três máscaras comuns. “Recebemos uma capa de chuva de manga longa, sem punho. O plantão da noite contou que à medida que se manipula o paciente, a manga vai subindo e o braço fica totalmente exposto. Não tem quem aguente ficar [dentro da capa] de tanto calor, e recebemos dois aventais descartáveis, duas toucas e três máscaras cirúrgicas. Tá uma vergonha isso. Dá até vontade de pegar as coisas e dizer: tchau, eu tenho família, não dá para trabalhar desse jeito”, desabafa outra servidora que pede para manter sigilo de sua identidade.
 
Capa de chuva no lugar de avental impermeável. "Não tem quem aguente ficar [dentro da capa] de tanto calor".
 
Capa de chuva sem punho nas mangas, dois aventais descartáveis, duas toucas e três máscaras cirúrgicas. 
 
 
Conforme expôs o diretor do Conselho de Enfermagem de São Paulo, Jeferson Caprone, na reportagem do Conexão Repórter (SBT), a partir de denúncias encaminhadas pelo Sindsep: "O que existe é avental de material que rasga na mão, o risco de contaminação é total....Situação é grave, gravíssima!".
 
Hospital Ermelino Matarazzo
 
Esse avental é o único disponível no Hospital Municipal Professor Dr. Alípio Correa Netto, em Ermelino Matarazzo, vizinho ao Tide Setúbal. Cada funcionário do plantão de 12h no setor de Pediatria do Hospital Municipal Prof. Dr. Alípio Correa Netto recebeu no domingo (5) 2 máscaras simples (indicada para uso de 2 horas), quando o indicado seriam 6 máscaras para o atendimento. No caso de quem está no isolamento, a máscara é a mesma, a cirúrgica. 
 
Máscaras fornecidas por plantão.
 
Kit guardado no armário para plantonistas.
 
 
A máscara N 95 que, conforme as normas do Conselho Regional de Enfermagem, deve ser descartadas a cada 12 horas, se não houver nenhum contato com secreção. “Se houver contato, a chefia indica que seja descartada imediatamente, mas eles orientavam que utilizássemos a máscara por 15 dias. Agora, aumentou para 30 dias o período da máscara N 95 ser mantida”, acrescenta o funcionário.
 
Óculos de proteção e viseira também não existem no isolamento da pediatria do hospital municipal de Ermelino Matarazzo. “A coordenação nos fornece somente as máscaras simples e quando é questionada responde que só tem 100 máscaras por semana para o meu setor e que quiséssemos processá-la, que processasse”, denuncia o servidor, que tem visto uma distribuição desigual de EPI comparada a outros setores.
 
Segundo ele, há um controle rígido da máscara. “Parece que a chefia quer mostrar para a direção do hospital que nosso setor de Pediatria é o que menos dá gasto. Eu não quero saber disso, quero saber da minha proteção, da minha saúde”, diz indignado.
 
Mesmo quem trabalha na observação, no isolamento de crianças que retornaram da UTI junto com outras que estão aguardando cirurgia, por exemplo, não recebe avental impermeável. “Somente quando vamos aspirar o paciente, é que temos que correr atrás do único avental azul impermeável que fica guardado num armário ou então pedir para o colega”, denuncia.
 
Técnicos de enfermagem com asma, ou seja do grupo de risco, seguem no atendimento, sem equipamento de proteção individual, sem estrutura de trabalho, desobedecendo aos protocolos das autoridades sanitárias, por imposição das suas chefias, e o que é pior: correndo risco. 
 
Risco Alto
 
Não por acaso, o próprio Ministério da Saúde, em seu boletim epidemiológico de sexta (3) avalia o risco nacional como muito alto. Deste modo, as Unidades da Federação que implementaram medidas de distanciamento social ampliado devem manter essas medidas até que o suprimento de equipamentos (leitos, EPI, respiradores e testes laboratoriais) e equipes de saúde (médicos, enfermeiros, demais profissionais de saúde e outros) estejam disponíveis em quantitativo suficiente, de forma a promover, com segurança, a transição para a estratégia de distanciamento social seletivo.