Saúde

29 de Março de 2020 - 20:03

S.O.S trabalhadores da saúde pública

Prefeitura e governo do Estado fazem marketing eleitoral, transferem recursos públicos para hospitais privados de luxo e ameaçam a vida dos trabalhadores da saúde pública.
 
 
Como vem ocorrendo diariamente, o Sindsep realizou neste domingo (29) uma nova transmissão ao vivo pela página do Facebook, como forma de compartilhar o monitoramento que vem realizando sobre a situação dos trabalhadores/as que estão atuando em serviços essenciais para o enfrentamento do Covid-19, na cidade de São Paulo.
 
 
 
 
A live foi transmitida de forma simultânea pela página do Sindsep, em parceria com o portal "Jornalistas Livres", reunindo mais de 20 mil visualizações, centenas de comentários e compartilhamentos. As condições de trabalho de quem atua nos serviços de saúde do município foi o tema do debate mediado pela comunicadora Cecília Bacha, do Jornalistas Livres, e o vice-presidente do Sindsep, João Gabriel, com as presenças da secretária de Trabalhadores da Saúde, Lourdes Estêvão, o auxiliar de enfermagem Douglas Cardozo, representante do sindicato no Hospital Municipal de Campo Limpo, além do fisioterapeuta Marcelo Reina, do Hospital Municipal de Vila Nova Cachoeirinha, da médica infectologista Juliana Salles, dirigente da CUT-SP e do Sindicato dos Médicos de São Paulo (Simesp) e o médico Cristiano Kakihara.
 
DESMONTE DO SUS
 
Marcelo Reina, fisioterapeuta do Hospital Municipal Vila Nova Cachoeirinha, na zona Norte, referência em São Paulo em partos de risco, comentou o risco da transmissão vertical do Covid-19 para os bebês – quando a gestante passa para o filho no momento do parto –, a partir da realidade de outros países, como a Itália. Ele também criticou a ênfase exacerbada ao modelo hospitalar, pelos governos Covas/Doria. “Nós temos o SUS, um modelo com a maior capilaridade no mundo, no entanto as equipes de Estratégia Saúde da Família (ESF), que poderiam ajudar na prevenção, identificação de casos, isolamento de contato, não estão sendo preparadas. A gente tem pessoas sintomáticas em casa e não sabemos, porque estamos perdendo toda a potencialidade do SUS. Tá muito centrado no sistema privado, mas as UTIs de hospitais que estão nas periferias são muito precárias, assim como nas unidades de Pronto Atendimento (UPA)”, avalia.
 
HOSPITAIS DE CAMPANHA PARA QUEM?
 
Douglas Cardozo, que trabalha no Hospital Municipal de Campo Limpo, acrescentou que os trabalhadores dos serviços municipais nas periferias estão adoecendo em função da sobrecarga de casos de maior complexidade. “Os hospitais de campanha que estão sendo montados pela Prefeitura com as organizações sociais atenderão que perfil de pacientes? Prefeitura faz uma grande mídia e qual será o impacto disso? A partir de investimentos absurdos, eles estão instalando esses hospitais nas regiões centrais para atender pacientes de baixa complexidade, que não é o paciente de Covid-19 grave, que necessita de respirador. Óbvio que vai sobrar o atendimento mais complexo para os hospitais municipais”.
 
MAIS DINHEIRO PARA QUEM ATENDE MENOS
 
A infectologista Juliana Salles acredita que os governantes devem ser responsabilizados pela situação de desmonte do SUS para enfrentar a pandemia. A médica lembra que embora 70% da população no país seja atendida pelo SUS, esteja em franco desmonte e desinvestimento pela Emenda Constitucional 95 (EC 95), que congela por 20 anos os recursos da saúde, a partir de 2016, é para o setor privado que o Ministério da Saúde libera mais recursos. “Mais de 50% de leitos de UTI estão nos hospitais privados que atendem a menos de 15% da população. Foram contingenciados mais de R$ 22 bilhões pela EC 95, no entanto o Ministério da Saúde liberou R$ 10 bilhões para o setor privado e duas emendas – uma de R$ 400 milhões e outra de R$ 600 milhões – para o setor público”.
 
Lourdes Estevão, secretária dos Trabalhadores da Saúde do Sindsep, prevê o caos em razão do número restrito de leitos de UTI nas periferias, que não ultrapassam de 200. “É preciso ativar o Estado a cumprir seu papel, realizar concurso público, contratação de emergencial, instalar hospitais de campanha nas periferias”, acrescentou. Ela defende que hospitais de campanha sejam erguidos também nas periferias.
 
CONDIÇÕES INACEITÁVEIS
 
Outra preocupação levantada pelo médico dermatologista Cristiano Kakihara, que atua em hospital público de São Paulo, é com trabalhadores com mais de 60 anos que trabalham no atendimento de saúde, pertencentes ao grupo de risco.
 
Na opinião do enfermeiro Cardozo são inaceitáveis as condições de trabalho e são elas as responsáveis por afastamentos diários nos serviços hospitalares das periferias, pelo adoecimento físico e mental que está aumentando. “Tem trabalhador confeccionando sua própria máscara”, cita.
 
 
DENUNCIE!
 
Na avaliação de Lourdes o problema da proteção e segurança dos servidores não pode deixar de ser denunciada. A questão é um dos maiores problemas recebidos no canal de denúncias do Simesp (www.simesp.com.br). Apesar da censura que os trabalhadores vêm sofrendo por parte de gestores, proibindo a entrada no plantão com celular, o vice-presidente do Sindsep, João Gabriel reforçou a importância dos servidores não silenciarem. “Nós precisamos ter os dados de trabalhadores que estão se afastando, que estão sem EPI, com equipamentos inadequados em quantidade mínima. Não tenha medo, porque você está sendo colocado em risco. Entre o dever e a necessidade, temos o direito. Denuncie! Não tem equipamento para atender, não abandone o paciente, mas chame outros colegas e grite: ‘não temos equipamentos para atender’”, conclamou Lourdes.
 
TESTAGEM E ASSISTÊNCIA PSICOLÓGICA
 
A direção do Sindsep também defende que o teste para o Covid-19 e a assistência psicológica aos trabalhadores da saúde devem ser incorporados como EPI. “Se não testa, ele se infecta, continua trabalhando e transmitindo para outras pessoas. Assistência psicológica é urgente também. Se a população está em pânico, imaginem os trabalhadores?”.
 
 
 
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