Saúde

20 de Maio de 2020 - 15:05

SAMU na pandemia: Os riscos que os profissionais enfrentam enquanto aguardam chamados

De aventais inadequados a espaços pequenos para o descanso, passando pela falta de chuveiros, samuseiros relatam problemas negligenciados pela Prefeitura de São Paulo na crise sanitária.

Por Cecília Figueiredo, do Sindsep

Profissionais que atuam no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) na cidade de São Paulo seguem com problemas na qualidade dos equipamentos de proteção individual (EPI) distribuídos pela Prefeitura de São Paulo e nos locais oferecidos ao “descanso”.
 
Num dos vídeos encaminhados ao Sindsep, é possível ver que o avental em material bastante fino não suporta o teste de líquido borrifado, expondo a insegurança na proteção que deveriam ter os trabalhadores no momento do atendimento.
 
 
Nas imagens, enviadas por profissionais de duas bases distintas, é visível a falta de espaço no local de descanso onde ficam até quatro profissionais. O que reforça o risco da contaminação, pela proximidade e desconforto.  
 
Alojamento na zona Norte com um beliche e uma poltrona, para o descanso de quatro profissionais
 
 
“O alojamento é minúsculo. Há um beliche e uma poltrona para acomodar uma equipe com 3, às vezes, até 4 trabalhadores. Têm plantões com funcionários novos, contratados pela SPDM, que tiram plantão como estágio de aprendizagem inicial antes de iniciar as atividades”, relata o trabalhador de Samu na zona Norte, que pede para não ser identificado.
 
O socorrista relata que a situação não é incomum. O que a gestão vem fazendo é colocar poltrona ao invés de outro beliche devido à restrição do espaço. 
 
“Me sinto ofendido com a falta de respeito ao funcionário que está na linha de frente de uma alta demanda de casos de covid-19. Temos direito a um mínimo de conforto para encarar um plantão de 12 ou 24 horas em regime de prontidão. Não é possível descansar em uma poltrona minúscula, ficar próximo de outro funcionário se expondo ao risco de contaminação”, denuncia o trabalhador.
 
Poltrona para economizar espaço no alojamento.
 
 
Uma segunda profissional de outra base na região Norte da cidade reforça a denúncia: "há alojamentos que para entrar um profissional tem que sair dois”, isso quando não são alocados entre caixas e materiais, espaço semelhante a um almoxarifado, como o da foto enviada por trabalhador de unidade na zona Sul. “Aqui não conseguimos tomar um banho após o plantão. Não tem chuveiro em nosso banheiro”, acrescenta.
 
 
Entre caixas, prateleiras e equipamentos fica o alojamento para samuseiros na região Sul.
 
Já na base da zona Leste, os trabalhadores mostram que as incorreções devem ser reclamadas. Foi assim que os profissionais obtiveram o avental recomendado pela Agência Nacional de Vigilância em Saúde (Anvisa) e pelo Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) poucas horas depois do Sindsep ter recebido a denúncia dos trabalhadores da unidade. “Aqui na minha base é muito difícil faltar materiais de higienização e equipamentos de proteção individual porque sabem que denuncio ao sindicato. Hoje que vieram com esse ‘vai que cola’ [referindo-se ao avental de TNT], mas três horas depois já avisaram que o avental apropriado estava disponível”, relata um terceiro socorrista.
 
"É um absurdo manter trabalhadores em locais sem condições de descompressão, pior ainda é o fato de que a maioria destes alojamentos se encontram dentro de AMAs, UBSs e UPAs, o que gera um enorme risco de contaminação cruzada entre os trabalhadores do SAMU e os pacientes destas unidades, sobretudo perante à falta de equipamentos de proteção individual adequados e à exposição destes trabalhadores ao Covid-19", afirma Lourdes Estevão, secretária dos Trabalhadores da Saúde do Sindsep.