Saúde

26 de Março de 2020 - 15:03

'Será um a menos para atender no Hospital do Tatuapé; não estou sabendo lidar com essa falta de proteção e orientação'

Esse é o desabafo de um servidor que relata a tensão enfrentada nos plantões, sem orientação e equipamentos de proteção individual, para atender em tempos de coronavírus
 
 
 
Nesse momento um enfermeiro do Hospital Municipal Dr. Carmino Carricchio (Tatuapé) está entubado por conta de infecção por coronavírus. Se foi dentro ou fora do hospital, como saber? Fato é que os demais colegas seguem trabalhando e sem nenhuma medida preventiva por parte da direção. O caso já tem cerca de uma semana, mas a tendência no aumento de baixas de servidores públicos é certa, caso o governo não tome as providências que precisam ser tomadas: fornecimento de equipamentos de proteção individual, que incluem máscara de proteção respiratória (respirador particulado) com eficácia mínima na filtração de 95% de partículas de até 0,3 (tipo N95, N99, N100, PFF2 ou PFF3), luvas, protetor ocular ou de face, capote ou avental de mangas longas impermeável e gorro.
 
Nenhum desses itens ou muito pouco deles está disponível aos trabalhadores que atendem em serviços essenciais na cidade de São Paulo.
 
Estoque do Hospital do Tatuapé sem EPI.
 
 
No centro cirúrgico do Hospital Municipal do Tatuapé, zona Leste de São Paulo, alguns trabalhadores já pensam em afastamento, devido à falta de segurança no trabalho, orientação técnica e as condições contrárias àquelas determinadas pela Organização Mundial da Saúde e autoridades sanitárias. "Estou pensando...logo será um a menos para atender no Hospital do Tatuapé, porque não estou sabendo lidar com essa falta de proteção e orientação", desabafa o servidor.
 
Sem apoio, ele decidiu denunciar que uma pessoa com suspeita de coronavírus foi colocada nesta quinta (26) na sala de recuperação pós-anestésica (RPA), junto com outros pacientes, depois de ser submetido à cirurgia eletiva. “A sala de RPA está lotada e os pacientes todos misturados. As cirurgias não estão suspensas?”, questiona o auxiliar de enfermagem, que pede para não ser identificado.
 
A unidade, segundo ele, está realizando cirurgias menores: como de retirada de vesícula (colecistectomia) e outras que não são casos de emergência.
 
Amedrontado, ele conta também que nem mesmo no centro cirúrgico os equipamentos de proteção individual estão disponíveis aos trabalhadores. “Ao chegarmos no plantão, comunicamos à responsável técnica que nos orientou buscar na sala do diretor do hospital. Eu nunca vi isso! Mesmo assim fomos até lá e ele disse que ‘não precisaríamos utilizar a máscara N95’, somente depois de muita conversa é que ele forneceu uma para cada profissional de saúde que estava ali e nos fez assinar um protocolo de retirada. A minha que era para duas horas (a cirúrgica) já estava se desfazendo, porque a gente respira né...”.
 
 
"A minha [máscara, como a da foto] é para duas horas e já estava se desfazendo, porque a gente respira né..."
 
 
O profissional conta também que está trabalhando no plantão de hoje sem óculos de proteção. “No último plantão não tinha e no anterior os quatro óculos que chegaram, nós usamos e tivemos de devolver no final do plantão. Hoje estou sem óculos, só tem quem comprou”. Cabe lembrar que os quatro óculos entregues na terça-feira (24) deveriam ser individuais -- conforme orientação da Agência Nacional de Vigilância em Saúde (Anvisa) --, mas foi orientado que compartilhassem entre os plantonistas dos demais plantões. O que na prática é risco de contaminação.
 
Sem orientação e nem “preparo para o manejo dos casos suspeitos ou confirmados de coronavírus” e o restante das demandas que chegam ao hospital, os trabalhadores estão em desespero. “Quando descobrimos um caso suspeito ou confirmado já demos assistência sem as precauções devidas. Estamos trabalhando numa tensão muito grande. Tenho pais idosos, moramos no mesmo quintal, meu marido é do grupo de risco….E a gente ainda tem que passar por essa humilhação de nem ter EPI”, desabafa o trabalhador.