Saúde

09 de Junho de 2020 - 14:06

Servidora do Samu relata o horror da internação por Covid-19 em um Hospital de Campanha

Enfermeira, que ficou com 50% dos pulmões comprometidos, luta agora para se recuperar e garantir que Prefeitura de São Paulo reconheça a doença como Acidente de Trabalho.

Por Cecília Figueiredo, do Sindsep

 

Ainda em processo de desintoxicação medicamentosa, imunidade baixa, mais magra e bastante cansada, a enfermeira que prefere preservar sua identidade, aceita nos contar como foi passar 20 dias internada pelo Covid-19. Com mais de 50% dos pulmões prejudicados, a enfermeira está convencida de ter adquirido a doença no atendimento no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

 

“Muitos trabalhadores da saúde acabam adoecendo por falta de equipamento de proteção individual. Chegou um momento que acabaram os aventais grossos e a prefeitura passou a mandar pra gente uns aventais mais finos brancos, parecido com TNT. Deveriam nos fornecer macacões inteiriços, impermeáveis. O profissional do Samu fica muito vulnerável. Entramos em locais de risco, na casa das pessoas, prestamos socorro a pessoas em situação de rua... Transportamos muitas pessoas com Covid-19”, pontua a profissional de saúde.


Conforme o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) registra em seu observatório, há um avanço diário de profissionais da Enfermagem adoecidos pelo novo coronavírus. Nsta terça (9/06), o portal já registrava 17.969 profissionais doentes no Brasil e 3.742 somente em São Paulo. Os dados não deixam muita dúvida sobre o risco de contaminação para quem está na linha de frente de combate à pandemia. A enfermeira é um destes exemplos.

 

Exame de tomografia e RT-PCR diagnosticam a Covid-19. No laudo do exame de imagem, feito em 13/05, o médico aponta o aumento na extensão da pneumonia nos dois pulmões e derrame pleural, comparado ao exame de 11/05.



Com duplo vínculo no serviço público, ela nos relata dias após a alta recebida pelo Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM), os momentos de desespero que viveu entre a contaminação e as noites em que esteve internada no Hospital Estadual de Campanha Ibirapuera.

O galpão, onde foi instalado o Hospital de Campanha no Ibirapuera, gerido pela organização social de saúde (OSS) Serviço Social da Construção Civil do Estado de São Paulo (Seconci-SP), é caracterizado por ela pela falta de organização e segurança no tratamento ao paciente.

 

“Você já esteve lá? Esse lugar é horrível! Eu fiquei duas noites nessa tenda. Um paciente enxerga o outro que está no leito em frente. Ficamos em quadradinhos separados por paredes plásticas e sem porta. Na primeira noite me deram antibiótico, na segunda, quando perguntei pela medicação, disseram que não havia prescrição pra mim. Uma médica me disse que estavam tentando corrigir uma falha do sistema, por isso não haviam me medicado. É muito desorganizado. Muitos profissionais novos, andando de um lado para outro, batendo cabeça, sem um treinamento prévio. Não sei se essa é a hora [pandemia] correta para os profissionais aprenderem. São vidas que estão ali. Quem monitorava meus sinais vitais era eu mesma. Direitos do paciente [preconizados pelo SUS] lá não existe, nem separação de ala feminina e masculina”, detalha a profissional ao lembrar traumatizada de um paciente internado no leito da frente que se masturbava ao observá-la com a camisola desarrumada, por não conseguir se movimentar.


Aflita pela falta da medicação, o risco de ser entubada e sofrer violência enquanto aguardava por uma vaga de UTI, a enfermeira piorou e foi levada para uma espécie de UTI dentro da “tenda”. Os colegas do Samu ofereceram ajuda e junto com outros servidores, ela conseguiu uma transferência para o Hospital do Servidor Público Municipal.

“Pedi ao médico do hospital que passasse o meu caso, porque haviam conseguido a vaga no HSPM e uma ambulância de suporte avançado estava a caminho, mas ele se omitiu. A enfermeira me informou que o médico teria dito que não iria ligar para a coordenação do Samu, e se a equipe do Samu quisesse fazer minha transferência que se virassem. Minha sorte é que conheço muitos profissionais de saúde no Município e Estado e eles conseguiram me tirar de lá”.

Segundo ela, no HSPM foi bem tratada nos 20 dias em que esteve internada, mas não esquece os momentos difíceis que viveu até chegar ali, onde recebeu o acolhimento de vários colegas. “Fiquei cinco dias entubada e em alguns permaneci sem sedação e com tubo, porque a glote inflamou e não poderiam extubar [retirar o tubo] até que desinchasse. Tiveram também que fazer o acesso pela jugular, porque na tenda acabaram com os meus acessos venosos periféricos. Um amigo médico me disse que erraram no encaminhamento, que a tenda é indicada para pacientes com sintomas mais leves, que precisam de hidratação, por exemplo. Meu caso era direto para vaga de UTI, esse médico me disse”.

A servidora, que agradece “a Deus” por ter voltado à vida, tenta se recuperar em casa depois da alta em 29 de maio, mas não esquece do pesadelo e da solidão que a reclusão impõe ao paciente para se tratar da doença.

 

Acidente de Trabalho?


A servidora busca reunir forças para obter a garantia da Prefeitura de São Paulo abrir a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT). “Soube que a Prefeitura não está enquadrando a Covid-19 como acidente de trabalho. Não sei como será ainda. Durante a alta no HSPM iriam me dar 10 dias, mas acabaram me afastando por 30 dias, devido à complexidade do meu trabalho no Samu e também pelo comprometimento dos meus pulmões. Agora, se eu não tiver força motora [necessária para o trabalho no Samu], não posso colocar a vida das pessoas em risco, porque são tão importantes como a minha própria vida. Vou ver se tenho condições para voltar. Pedi para entregarem meus documentos para abrir a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), mas no RH me informaram que a prefeitura não está abrindo”.

 

Para facilitar o reconhecimento como doença ocupacional, o Sindsep elaborou um requerimento para que o trabalhador entregue no departamento de RH oficializando o pedido de preenchimento de CAT. Caso a unidade se recuse aceitar o documento, o trabalhador deve entrar em contato com o Sindsep, pelo WhatsApp oficial: 11 97025-5497.

 

Desde o início da pandemia, o Sindsep está atento a ausência de orientações sobre o registro, investigação e reconhecimento dos casos de Covid-19 como acidente de trabalho. Para o secretário de Política de Saúde do Trabalhador do Sindsep, Roberto Alves, é inadmissível que a gestão não reconheça que ao expor os trabalhadores a jornadas excessivas, falta de EPI e ausência de planejamentos das ações, tenha ainda dificuldade em admitir que os trabalhadores podem se contaminar no ambiente de trabalho.

Memória da paciente


No início de maio, a enfermeira foi acionada para cobrir o plantão de uma auxiliar de enfermagem do Samu de outra base, também afastada por Covid-19 e depois disso acredita que começou a adoecer.

“Após o atendimento de dois chamados nessa base, comecei a ter enxaqueca, coriza, uma dor de garganta… Eu achava que fosse por causa da ventania que entrava pela janela aberta no local onde descansávamos. Era um lugar muito pequeno dentro de uma UBS… No dia seguinte (5) amanheci sem voz e com enxaqueca. No dia 6, tive dores no corpo, mas continuava trabalhando. Peguei folga no dia 8, e acordei muito cansada, com dispneia, falta de ar. No dia 10, a falta de ar aumentou, procurei o posto de saúde e lá fizeram o RT-PCR (swab) e o Raio-X. A radiografia revelou que eu estava com mais de 50% dos pulmões comprometidos. Aí me encaminharam para a ‘tenda’ do Ibirapuera [Hospital Estadual de Campanha do Ibirapuera]”.