Saúde

03 de Março de 2020 - 17:03

Sindsep participa de protesto contra ameaça de desmantelamento do Centro Especializado de Reabilitação Ipiranga

Coordenadora Regional de Saúde Sudeste, que comanda mudança do prédio administrativo para o prédio nde funciona serviços de reabilitação de pessoas com deficiências, se negou a receber comissão e foi vaiada.
 
 
 
A direção do Sindsep-SP engrossou o protesto de usuários e conselheiros em frente ao Centro Especializado em Reabilitação (CER ) IV - Flávio Giannotti, no Ipiranga, ameaçado de ser desalojado para dar lugar a escritórios da Coordenadoria Regional de Saúde Sudeste (CRSS). Movimentos de moradia e de saúde também estiveram presentes na atividade.
 
 
"Nós dizemos não ao desmonte do CER IV, a essa onda neoliberal de ataque ao SUS, de ataque à vida”. | Foto: Pedro Canfora
 
Inaugurado em março de 2015, o Centro Especializado em Reabilitação (CER ) IV - Flávio Giannotti, no Ipiranga, para reduzir o tempo de espera para exames, consultas especializadas, terapias para pessoas com deficiências físicas, intelectuais, visuais, auditivas e múltiplas, além de adaptações de próteses de diversos tipos, incluindo cadeiras de rodas e aparelhos auditivos, o equipamento está ameaçado de ser confinado a um único andar. 
 
“Por ordem do secretário municipal de Saúde, a Coordenadoria Sudeste, que já está fazendo a mudança, vai desmantelar um serviço de reabilitação de extrema importância para a população. Nós dizemos não ao desmonte do CER IV, a essa onda neoliberal de ataque ao SUS, de ataque à vida”, explicou a secretária de Atenção a Mulher do Sindsep, Luba Melo.
 
Luba também denunciou que servidores estão sendo coagidos a não se manifestarem e um dos diretores foi transferido na última segunda (2) por ter se negado a liberar salas para a CRSS.
 
 
ECONOMIZAR VIDAS?
 
O vice-presidente do Sindsep, João Gabriel Buonavita, lembrou de outros ataques do mesmo governo Covas/Doria, como a tentativa de fechamento das unidades de Assistência Médica Ambulatorial (AMA), das unidades básicas de Saúde (UBS) e entrega das farmácias. “Esse governo que entregou o SAMU a custo de quantas vidas? Nós não vamos recuperar mais essas vidas, sob a justificativa de ‘economizar’. Hoje, estamos aqui porque não vamos permitir que o Ambulatório de Especialidades Ipiranga seja entregue ou transferido para local inadequado, porque perderá a capacidade de atendimento, o serviço vai ser rebaixado, vai perder verbas de investimento. O que está acontecendo aqui é que estão desalojando a população que depende desse serviço e não salas”.
 
As salas de atendimento do Centro Especializado de Reabilitação (CER IV), modalidade mais completa desse tipo de serviço, por atender os quatro tipos de deficiências, estão ameaçadas de serem ocupadas por escritórios da Coordenadoria de Saúde Sudeste, que já esteve naquele espaço há alguns anos. A justificativa da gestão para a transferência seria economia com locação, no entanto a decisão foi tomada sem consultar a população ou os funcionários do CER.
 
 
Parte da equipe da coordenadoria já oocupando espaço do CER IV Ipiranga. | Foto: Cecília Figueiredo
 
José Martins, conselheiro do serviço de reabilitação concorda que é necessária a economia, mas não a custo de prejuízo à saúde. “Não pode ser feita de qualquer jeito, de repente, como foi feita pela atual coordenadora, sem discussão prévia. Em reunião na segunda (2) na Secretaria de Saúde, o chefe de gabinete nos assegurou que o atendimento não deve ser alterado, mas resta a pergunta: em que condições? O espaço está sendo diminuído para acomodar setores burocráticos!”.
 
O CER IV é um dos poucos equipamentos na cidade de São Paulo que oferecem atendimento num mesmo prédio para quatro tipos de deficiências e o governo Covas/Doria quer sucatear, critica Maria Aparecida Martinelli, conselheira gestora de UBS da Vila Ema e da Supervisão Técnica de Saúde da Vila Prudente. A funcionária aposentada não se conforma com as alterações. “Esse complexo [de saúde], que além dos serviços de reabilitação armazena toda as vacinas [PADI] é muito importante para a população, não pode ser prejudicado, em função de economia. Em saúde não existe economia, existe investimento. Nenhum serviço a menos”, afirma.
 
 
PERDA DE RECURSOS 
 
Na avaliação da fonoaudióloga Claudia Manzoni, servidora aposentada que esteve envolvida até 2016 no planejamento da política de reabilitação do município, verificar a situação antes de serviços como o CER IV e depois dele, é constatar a mudança de paradigma inclusive do olhar sobre a pessoa com deficiência, do tratamento, para assegurar maior autonomia a essas pessoas. “Tudo isso tá em risco, inclusive o financiamento federal para esse serviço. A obrigação da gestão é melhorar os serviços públicos, se for isso a gestão terá todo apoio, caso contrário a população seguirá lutando ferozmente porque foram muitos avanços que não podem ser perdidos”.
 
Serviço especializado tem capacidade para receber 1500 pessoas por dia. | Foto: Cecília Figueiredo
 
De acordo com trabalhadores e pessoas que utilizam o serviço, em abaixo-assinado eletrônico, não foi confirmada para onde serão realocados os recursos do CER, mas a mudança da Coordenadoria já começou!
 
“Defendemos a continuidade do CER no espaço que foi construído para ele, e exigimos que qualquer mudança seja feita de forma ordenada e discutida com os usuários e funcionários da unidade”, diz o manifesto.
 
 
RESISTÊNCIA CONTRA DESMONTE
 
A região do Ipiranga, que compreende também os distritos do Sacomã e Cursino, constitui uma população de 436 mil habitantes, conforme o Censo IBGE 2010, no entanto o serviço com capacidade média de 1.500 atendimentos/dia não se restringe ao atendimento de pessoas que vivem no território, pela oferta de procedimentos cirúrgicos e ambulatoriais com equipamentos que faltam em outras áreas da cidade, muita gente de outras regiões é atendida lá.
 
Além de vaias e pedidos de “Fora Nilza!” pela forma arbitrária com que trata trabalhadores e usuários, muitas pessoas fizeram uso do microfone do Sindsep para relatar que perderam seus convênios particulares de saúde e dependem exclusivamente do SUS. “O Flávio Giannotti garante um tratamento de excelência, com profissionais gabaritados e não com dinheiro do governo, com nosso dinheiro, de pagadores de impostos. A coordenadoria não tem o direito de invadir um espaço que é propício à reabilitação”, disse Luciane.
 
"Estão desalojando a população que depende desse serviço, não estão desalojando salas”. | Foto: Pedro Canfora
 
Embora chamada várias vezes pelos manifestantes, a coordenadora da Sudeste, a médica Nilza Maria Piassi Bertelli, não saiu à porta e nem recebeu a comissão disposta ao diálogo. Porém, a Prefeitura de São Paulo negou o fechamento do serviço, por meio de comentário na transmissão ao vivo da TV Sindsep, “que as agendas dos profissionais e os atendimentos não sofreram alteração” e que “a administração do CER avalia melhorias na utilização do espaço para melhor atender à população”.
 
A resposta não convenceu os manifestantes. Maiorania Nunes de Menezes, mãe de um adolescente de 13 anos e uma criança de dois anos, que não consegue agendar consulta com fonoaudiólogo, disse estar preocupada. “Eles me informam que não tem agenda para fonoaudiólogo. O Flávio Giannotti não pode fechar, porque senão, nós usuários do SUS ficaremos sem especialistas”.
 
Lourdes Estêvão, secretária dos Trabalhadores da Saúde no Sindsep, valorizou a resistência que vem ocorrendo contra a política de saúde do governo Covas/Doria. “O que está ocorrendo hoje aqui está acontecendo na cidade inteira, em várias unidades a população está se organizando e resistindo para não perder”. Estêvão também lembrou que o secretário de Saúde, Edson Aparecido, se comprometeu com o Ministério Público que onde houvesse a rejeição do Conselho Gestor sobre a terceirização ou fechamento de unidades ele iria obedecer. “Não podemos admitir que ele repasse nossos serviços, a rede hospitalar para as organizações sociais. Quem faz o atendimento é o serviço municipal!”, salientou.
 
Lourdes Estêvão valorizou ação de resistência que está ocorrendo em toda a cidade de SP. | Foto: Pedro Canfora
 
Após a manifestação, que reuniu conselheiros municipais de Saúde, como Francisca Ivaneide Carvalho e Francisco Freitas, representantes dos vereadores Juliana Cardoso (PT) e Celso Giannazzi (PSol), usuários informaram que o processo de mudança da CRSS segue nesta tarde.
 
Os dirigentes do Sindsep prometeram seguir alertas em relação aos retrocessos do governo, da mesma forma que a população.