Saúde

28 de Julho de 2020 - 11:07

Sucateamento do SAMU expõe trabalhadores ao risco da Covid e pacientes a atendimento precário por falta de materiais

Funcionários de seis bases na cidade de São Paulo denunciam falta de insumos para atendimento adequado, de manutenção de ambulâncias, locais insalubres para a descompressão, ponto de assistência fantasma e veículo básico circulando e recebendo para atendimento intermediário.

Funcionários do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) de seis bases na cidade de São Paulo denunciam condições precárias dos pontos de assistência, falta de insumos para atendimento adequado, falta de manutenção de ambulâncias, locais insalubres para a descompressão (descanso dos profissionais) e ausência de medidas de prevenção contra a contaminação de Covid-19.

 

Trabalhadores de duas bases na zona Leste relatam problemas que se tornaram recorrentes desde a desestruturação em 2019, imposta pela Portaria nº 190/2019 do prefeito Bruno Covas, que deslocou as equipes para equipamentos de saúde municipais, com obstáculos para saída das ambulância e espaços inadeuqados, conforme mostram as fotos e relatos.

 

Ambulância fantasma na Base Itaquera

 

Na base do Hospital Municipal Waldomiro de Paula, em Itaquera, zona Leste, as trabalhadoras não podem tomar banho após o expediente. Mesmo enfrentando a maior crise sanitária, o chuveiro do banheiro feminino não existe. O lugar serve para depósito de materiais de limpeza, por sinal em falta de vários dos itens. “Depois da empresa de limpeza ter perdido o contrato, dependemos do pessoal da limpeza do hospital, que faz a higienização uma vez por dia. E falta tudo aqui para a higienização, até papel para secar as mãos nos banheiros feminino e masculino. Agora, imagine como essa base fica!”, critica o trabalhador que pede para não ser identificado.
 

Chuveiro feminino não existe e sala administrativa serve de depósito de materiais.

 

Segundo ele, não há também espaço suficiente e adequado para estacionar as duas ambulâncias, duas motolâncias e nem para desprezar os materiais infectados ou fazer a higienização dos veículos.

 

Não há espaço suficiente e nem adequado para estacionar as duas ambulâncias, motolâncias e nem desprezar os materiais infectados.

 

“As equipes de duas ambulâncias estão desfalcadas e o local de descanso é pequeno para todos os plantonistas”, acrescenta.

 

Trabalhadores não têm espaço adequado para descanso.

 

Outra situação grave que já foi notificada refere-se ao tipo de ambulância que está em atendimento. “A ambulância básica [Suporte à Vida Básica] em circulação está registrada nos relatórios como sendo de Suporte Intermediário à Vida [SIV]. O recurso que está sendo pago é para uma SIV, mas a ambulância que circula é a básica. Já houve reclamação e nada foi resolvido. Não há medicamentos, materiais necessários para o atendimento e enfermagem correspondente”, denuncia.

 

Riscos de contaminação na Base Julio Tupi

 

A falta de local e materiais para higienização das ambulâncias também é um dos problemas citados pelos trabalhadores da Base que funciona na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Júlio Tupi, em Guaianases, zona Leste. Desde o início do mês, funcionários reclamam da falta de itens de EPI, como gorros. Eles também não tem recebido sacos para armazenar lixo infectante. São obrigados a utilizar sacolas de supermercado ou balde para armazenar o lixo contaminante, o que ameaça a saúde pública se destinado de forma errada. “Falta surfa’safe [espuma detergente desinfectante indicada na limpeza e desinfecção de superfícies, equipamento e dispositivos médicos]. Não tem um lugar adequado pra lavar materiais e a ambulância”, relata uma funcionária do SAMU, que pede sigilo de seu nome.

 

Sem local para higienização de materiais contaminantes, trabalhadores eram obrigados a usar sala de emergência da UPA.

 

Até uma semana atrás, a sala com pias para a equipe do SAMU higienizar materiais continuava trancada, obrigando os trabalhadores a utilizarem a sala de higienização da emergência da Unidade de Pronto Atendimento Júlio Tupi para lavar equipamentos (transfer, cintos da maca etc).

 

AMA Sorocabana sem espaço

 

A falta de espaço para o descanso também expõe aos risco os trabalhadores na Base do SAMU que funciona na Assistência Médica Ambulatorial (AMA) Sorocabana. Nove trabalhadores ficam aglomerados na sala que não tem mais que 9 metros².

 

Falta talas para acidentados em Interlagos

 

Dois dos cinco tipos de talas indicadas para o atendimento de traumas e lesões em acidentes estão em falta na Base do Samu Interlagos. “A questão das talas envolve utilizar o equipamento certo na lesão certa. Essa situação é indignante”, completa o técnico de enfermagem que pede para não ser identificado por temer perseguições.

A indignação do trabalhador se estende ao falar também sobre a falta de cuidados, já que a base não dispõe sequer de termômetro para verificar a temperatura de quem chega ao local. “A gerente já solicitou termômetros, nova testagem e outros recursos para ‘criar a entrada protegida’ de funcionários na base do SAMU Interlagos, mas até hoje nada. Tivemos um caso confirmado dentro da nossa base e nenhuma medida foi adotada”, diz o trabalhador. Além da falta de prevenção com os profissionais, aqueles que cumprem jornada dupla são impedidos de realizar o teste durante o expediente.

 


Sistema de arrefecimento de algumas ambulâncias, como esta da foto, tem óleo, precisam de manutenção e seguem rodando.

 

A situação de algumas ambulâncias que estão em circulação, sem manutenção, também é bastante precária.

 

Base fantasma do SAMU na Sudeste

 

Já a base Teotônio Vilela do SAMU, no Sapopemba, existe somente no papel. “A base do Teotônio não está em reforma, simplesmente ela só existe no papel. [A base] era pra ser na Unidade Básica de Saúde (UBS) Teotônio Vilela, mas houve uma manifestação contrária a ida do Samu para lá. Depois disseram que [a base] seria colocada no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Sapopemba, mas pelo que soube, a Coordenação de Frota não autorizou, porque a saída de ambulância seria muito difícil”, denuncia trabalhadora do SAMU que pede sigilo de sua identidade e a investigação sobre o destino da base fantasma.

A ambulância do SAMU (nº 997) da base fantasma está alocada no Hospital Municipal Dr. Benedicto Montenegro, onde funciona a Base do Jardim Iva, que possui quatro ambulâncias para o atendimento. A informação desmente o que foi divulgado pelo governo Covas em seu “plano de descentralização”, prevendo o aumento de 58 para 75 bases do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.

 

Ponto de Assistência do Hospital Municipal Prof. Mário Degni

 

Na região Oeste, o ponto de assistência do SAMU que funciona dentro do Hospital Municipal e Maternidade Prof. Mario Degni (Jd. Sara) tem várias inadequações.

 

Falta de cobertura, saída independente e local de higienização na Base Mário Degni.

 

“A base não tem espaço para comportar duas equipes, não existe cobertura pras ambulâncias, o banheiro é compartilhado com os funcionários do hospital. Os materiais e rádio de atendimento ficam dentro de nossa sala de descanso. Não temos armários para todos funcionários, nem lugar adequado para lavar materiais ou para higienizar ambulância e os equipamentos. Sem contar a dificuldade para a saída das viaturas, pelo trânsito e circulação do público do hospital”, detalha.

 

Os materiais e rádio de atendimento ficam dentro de nossa sala de descanso.

 

SINDSEP

 

Para Ejyvaldo do Espírito Santo, diretor do Sindsep, embora algumas modificações nas novas bases tenham sido realizadas os problemas com o desmonte das bases antigas permanecem. O dirigente cita a falta de local adequado para estacionar as ambulâncias. “Estive recentemente na Base de Cidade Tiradentes e apesar de adequações para acomodar os profissionais do SAMU, as ambulância seguem sem cobertura”.

 

O Sindsep seguirá cobrando providências para garantir condições adequadas de trabalho e aos profissionais do SAMU.