Saúde

20 de Julho de 2020 - 14:07

UPA Perus | Sete meses depois de inaugurado serviço tem autoclave parado, poucos funcionários e falta de água

"Finalizaram a inauguração da UPA correndo para cumprir prazo de entrega, encerraram as atividades do Pronto Socorro e deixaram vários detalhes importantes sem solução até hoje", ressalta a diretora do Sindsep.

Quem entra na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Perus, na região Noroeste da cidade de São Paulo, tem uma falsa sensação de ingressar a um serviço de saúde de primeiro mundo. Falsa porque embora a unidade tenha sido inaugurada há sete meses, já esconde problemas importantes, na hidráulica, cobertura da unidade, segurança dos pacientes internados e falta de equipamentos de proteção individual para a equipe que realiza a higienização do serviço, entre outras questões.

De acordo com Lucianne Tahan, coordenadora de Região Noroeste do Sindsep, na superfície o prédio tem uma aparência maravilhosa, mas há mais de duas semanas não há água nos banheiros da unidade. Segundo a administração do serviço, o problema está na bomba da água de reuso e já foi solicitado conserto.

 


Banheiro de funcionários sujos, como resultado de falta de água há mais de duas semanas.


Seguindo para o ambiente de internação temporária, a diretora do Sindsep também observou a ausência de divisórias entre pacientes da saúde mental e os demais, como por exemplo, da pediatria. “Não há garantia para o paciente internado. Um trabalhador nos informou que recentemente um dos pacientes de saúde mental internado tentou pegar uma criança, alegando ser seu filho”.

 


Falta de proteção nas janelas das alas de observação e emergência põe em risco pacientes da saúde mental

 

Embora o prédio seja novo, durante as chuvas, a unidade fica alagada, principalmente nas escadas e piso térreo, há lâmpadas queimadas, a porta de vidro quebrada na entrada principal e ausência de grades de proteção nas janelas. “A equipe de segurança e portaria é insuficiente para atender à demanda do prédio. Pacientes quebram portas e paredes (Dry wall) aos pontapés e socos, como pude ver em duas delas. O prédio também não conta com serviço de manutenção preventiva nem de emergência. Há um mês fomos informados que faltou água durante o plantão, pois as bombas de água das caixas d'água entraram em curto circuito e desarmaram”.

 


Pacientes quebraram parede (Dry wall) e um esparadrapo foi colocado para esconder buraco.


A falta de proteção externa nas janelas das alas de observação e emergência preocupa, segundo ela, pois há o risco de pacientes, principalmente os de saúde mental, a pularem do andar superior. “As cortinas que dividem os leitos de internação estão caindo e uma delas nem houve a reposição. Isso leva a um risco de contaminação entre os pacientes que estão internados”, alerta a dirigente.
 

Falta cortinas para dividir os leitos de internação, aumentando risco de contaminação e outros problemas.


A autoclave, equipamento que serve para fazer a esterilização de instrumentos cirúrgicos, nunca funcionou. Desde 18 de dezembro de 2019, a equipe é obrigada a utilizar a ambulância local (que seria para transportar pacientes) para levar os materiais para esterilizar no antigo prédio do Pronto Socorro Perus ou no Hospital Municipal de Pirituba.

Outro problema identificado está na falta de enfermeiros e técnicos para atuarem no serviço, que vem atendendo em alguns dias de forma precária. “A ambulância circula apenas com motorista, sem serviço próprio de enfermagem. Quando tem que remover pacientes para outros hospitais, ou mesmo levá-los para consulta médica e exames em outros hospitais, solicitam a enfermagem da UPA”, acrescenta Lucianne.

 


Lâmpadas queimadas no ambiente do Pronto Atendimento.

 

Na conversa com os trabalhadores da UPA Perus, também foi relatada a ausência de serviços de rouparia aos finais de semana, feriados e no período noturno. “Os trabalhadores da enfermagem estão sendo solicitados a lotarem os carrinhos com hampers (cestos de roupa hospitalar), descerem os elevadores, que não são separados para pacientes ou materiais contaminados, e deixarem os carrinhos do lado externo do prédio, a céu aberto”, detalhou.

 

Maquiagem 


No mesmo dia em que o Sindsep visitou o equipamento, o vereador José Police Neto (PSD) também esteve na UPA Perus, acompanhado pela equipe da OSS SPDM, mas não conversou com trabalhadores. “A unidade foi maquiada. Havia cinco funcionários da limpeza no andar superior e cinco no andar térreo para deixar a UPA em situação adequada. No entanto, o dia a dia é diferente, segundo os funcionários. São quatro trabalhadores que realizam a limpeza dos dois andares da UPA, o que inclui as áreas onde são atendidos os pacientes de Covid-19. E eles não recebem avental e outros equipamentos de proteção individual suficientes para não se expor ao risco da doença. A paramentação dos trabalhadores no dia da visita era apenas luvas nitrílicas e máscara, que foram cedidas pelos trabalhadores da enfermagem, porque a empresa de limpeza contratada nem isso garante”.

 

A toque de caixa

 

Na avaliação da coordenadora do Sindsep, além dos problemas de estrutura, falta de trabalhadores, EPI e desvio de função dos funcionários da enfermagem, há uma exposição de todos os profissionais ao risco da pandemia. “Finalizaram a inauguração da UPA correndo para cumprir prazo de entrega, encerraram as atividades do Pronto Socorro e deixaram vários detalhes importantes sem solução até hoje”, pontua a dirigente sindical.